Neste exato momento está acontecendo a FLIM - Festa Lítero-musical do Parque Vicentina Aranha e muitas reflexões surgem do evento.
A primeira reflexão é que os autores de São José dos Campos que quiseram ter suas obras expostas na Flim tiveram de participar de um sorteio porque não havia espaço para todos. Os sorteados ainda teriam de pagar R$ 60,00 para ter suas obras expostas e ter o direito de vendê-las durante a Flim.
A segunda questão é a participação de músicos consagrados como Antônio Nóbrega e Chico César.
Para mim, estes eventos deveriam superar a questão da inserção da literatura no mercado de livros, são coisas tão distintas e estes eventos insistem em tratar a literatura como venda de livros segundo a ótica predominante do capitalismo em que tudo tem de ser mercadoria.
A literatura não é mercadoria, não consegue ser mercadoria porque é uma manifestação que exige uma complexidade maior de compreensão do consumidor. E enquanto os autores forem tratados desta forma, como pessoas que devem inserir-se no mercado (e este "mercado" é uma instituição nebulosa), os autores terão sempre a dificuldade de saber como se faz isso e podem sujeitar-se a primeira questão que coloquei: a de pagar para ter o seu produto exibido. O erro será sempre pensar que o seu trabalho autoral é um produto. Livro não é produto, livro é autoria, é pensamento, é reflexão. Quanto o livro se torna produto, passa a ser apenas um objeto a ser adquirido e deixa de ser autoria, pensamento e reflexão. Tornando-se objeto, ele é consumido no momento em que é comprado e não no momento em que é lido.
Penso que estes organizadores deveriam pensar em convidar, pode até ser por edital, pois talvez não haja espaço para tanta gente, os autores da cidade onde a festa se realiza para expor seus livros e deveria comprar os livros para que fossem distribuídos gratuitamente entre os leitores interessados. O leitor chega na mesa em que o autor está, conversa com ele, interessa-se pelo assunto que foi proposto e leva o exemplar do livro do seu interesse que será consumido no ato da leitura do mesmo e não pela compra.
Que se pague por exemplo, R$ 10,00 por livro e permita-se ao autor entregar 100 livros durante a festa, que se tenha 50 autores e 5.000 livros sejam distribuídos gastando-se R$ 50.000,00 com os livros.
Que se permita aos músicos se apresentar recebendo cachê adequado, por exemplo, R$ 1.000,00 por apresentação e que se tenha 10 músicos da cidade em palco durante os dias do evento.
Que se traga autores renomados, e músicos consagrados para que este se misturem e troquem experiências com os autores e músicos da cidade.
Isso para mim seria uma festa lítero-musical.
O que vejo é o uso dos autores como chamariz para um público que se pensa superior intelectualmente num evento feito para que a cidade se aproxime de um modelo de capital, onde os organizadores pensam em atrair público para justificar o uso de dinheiro público em organização social que faz o papel de secretaria de cultura ou fundação cultural, desvinculando o evento da sua cidade porque este evento poderia ocorrer aqui em São José dos Campos, em Jacareí, Taubaté, São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto ou qualquer outra cidade pois não tem a cara e nem a participação dos autores e músicos da cidade, mas tem a cara e a participação de autores e músicos de fora da cidade que poderiam estar em qualquer lugar do país.
domingo, 17 de setembro de 2017
quinta-feira, 23 de março de 2017
JURO QUE TENTEI - FABRÍCIO CUNHA
Ao ler este livro de Fabrício Cunha, admito que fiquei transitando entre gostar de algumas coisas e não gostar de uma forma mais generalizada. O autor sabe como escrever bem e tem seu estilo bastante marcante no livro. Ele intercala uma sequência de frases curtas em parágrafos enxutos onde vai construindo o seu pensamento para, depois, vir com um parágrafo um pouco mais longo, entrecortado, isto torna o texto ágil e interessante, um exemplo é o início do conto "O Primeiro Chicabon a Gente Nunca Esquece":Percebe-se a sequência de frases curtas para formar o pensamento do leitor na direção do clima que o autor cria com o sentido de tentar prender a atenção até o desfecho.
Este formato ocorre no livro todo. O autor não constrói frases longas, sua intenção é criar uma leitura rápida, isenta de formas requintadas e de dificuldades semânticas. Vai sempre direto ao assunto, sem floreios.
Este estilo funcionou muito bem nos textos curtos, de duas a seis páginas, em que se esperava uma rápida solução para a história. Com isso, percebe-se que houve uma dificuldade em construir uma história longa e o estilo não funcionou para a única história longa, o conto "Ela, era ela, é ela", pois acabou por ser de uma leitura previsível e cansativa, uma vez que se advinha a história na medida em que vai acontecendo e que não há uma construção forte dos personagens.
Então, a forma que o autor propõe tem uma leitura aprazível nos textos curtos pois seu estilo é bom.funciona para estes textos.
Aí entro na questão do tema do livro que e a busca pelo sexo oposto e, deste ponto de vista, fiquei um pouco decepcionado e em dúvida quanto à intenção do autor em mostrar as questões emocionais (subtítulo do livro) de forma tão superficial, reduzindo o relacionamento às questões sexuais. Gosto de pensar que o autor de um livro não é o seu personagem principal, o autor cria um personagem e trabalha com ele, ainda que esteja escrevendo em primeira pessoa. Este personagem protagonista do livro parece que está eternamente cheio de testosterona, fazendo sexo com todas as mulheres que aparecem pela frente.
Preciso dizer que os contos deste livro me passaram uma visão onde os relacionamentos estão cercados de machismo. as personagens femininas são mostradas apenas como objetos do prazer do protagonista, elas não tem voz, não tem vez, e vivem como se estivessem em outro mundo, inacessível para o homem, fazendo-se a devida exceção para o momento do sexo que passa a ser o elo entre os mundos masculino e feminino. Não há muitos sentimentos, a vida se resume a busca do prazer, a tentar um momento (ou vários) de sexo, a perfomance é mais importante do que a intimidade. Senti-me dentro de uma propaganda de cerveja de milho transgênico, numa praia em que os homens estão atrás das mulheres bonitas e acham que bebendo vão conquistar o sexo desejado. Nota-se a importância do aspecto físico, não basta ser mulher, tem de ser bonita, não basta ser bonita, tem de aceitar ser objeto de prazer. O relacionamento é um consumo, assim como os produtos de um supermercado.
A minha dúvida é: o autor pensa assim ou está, com o livro, mostrando o seu lado de crítica social. Parece-me que ele está dizendo que a sociedade é assim mas não deveria ser machista, utilitarista (transforma pessoas em objeto), rasa nos relacionamentos, egoísta. Ao contrário, deveria ser mais profunda, solidária, não consumista, onde as pessoas deveriam ser vistas no todo, considerando as suas tristezas, alegrias, conquistas pessoais e coletivas, sentimentos.
Ao ler o livro, espero que o leitor considere as questões acima e não tome a vida mostrada pelo autor como a correta.
Se o protagonista é um "ferrado emocional", diria que mereceu ser assim ao considerar a forma como enxerga as pessoas do sexo oposto. A visão que o protagonista dos contos oferece é justamente aquela que se tenta combater mas que é real, está presente na sociedade e influencia a todos. Sou contra esta visão machista, misógina, sexista, consumista, egoísta. Desejo que as pessoas sejam sempre mais solidárias, sociais, coletivas, acolhedoras, não consumistas.
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
O PRETÉRITO DAS HORAS DE JORGE PESSOTO
Os aspectos preponderantes do livro são a saudade, o tédio, a passagem do tempo, o passado. Neste sentido, a leitura do livro é bastante interessante mas demanda tempo e reflexão, primeiro porque os poemas são longos, de versos longos, dando um ritmo lento ao livro, segundo, porque é preciso pensar em cada cena que se vai projetando do livro para a cabeça. Este tempo mais lento de leitura remete ao mesmo momento temporal em que encontrei esta vila, em que a vida tinha este ritmo mais lento. Desta forma, os poemas são reflexo do tema proposto no livro e isso fez dele uma obra bastante coesa.
Fiquei intrigado. Haverá outros livros em que o tempo será trazido para o presente e o ritmo dos poemas também será mais acelerado? Não sei nem se é a intenção do poeta fazer um outro livro neste sentido mas fica a ideia de um livro de São José dos Campos industrializada, onde o ritmo dos seus habitantes é acelerado e, praticamente, nem tem mais tempo para sentir o tédio das catorze horas, tão insistentemente vivo no livro.
No entanto, como não fiz a leitura toda de uma só vez, pois tenho o costume de ler alguns poemas num dia, depois outros no outro dia e assim por diante, muitas vezes tive a sensação de já ter lido o poema e, algumas vezes, pareceu-me que li o mesmo poema com as palavras em ordem trocada. Ou seja, senti algumas vezes que havia um excesso de repetição no tema e nas palavras utilizadas, Cortar alguns poemas do livro teria trazido benefício para o leitor.
Algumas palavras que se repetiram e foram mais marcantes foram "saudade", "cidadela" e "tédio". Em um poema, li a palavra "cidadela" duas vezes, não que isso seja ruim ou bom, apenas percebi que esta figura, esta metáfora é importante para o poeta, fiquei pensando e fica a pergunta: Qual é a questão da cidadela? Por quê cidadela? Porque, para mim, cidadela tem outro significado, conforme o dicionário: fortaleza situada em lugar estratégico, que domina e protege uma cidade. Isso me confundiu porque penso que o poeta queria dizer cidade pequena ou talvez uma cidade perdida, mas na minha cabeça cidadela tem sentido militar. No livro, pode até ter o sentido de um local de resistência ao mundo caótico que vivemos atualmente.
O Vale do Paraíba é um tema importante para o autor. Há o questionamento do que foi o Vale, do que é hoje e, dentro deste tema, o autor reflete se teria este vale uma alma própria vinda de seu passado e se isto nos quer dizer alguma coisa. Teria uma forma de ver e viver o mundo típica e característica do Vale do Paraíba, única, distinta de todas as outras formas de ver e viver o mundo? Um jeito perdido no tempo em algum momento? Para ilustrar, trouxe este trecho do poema A Espera.
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| Trecho do poema: A Espera |
Outra questão que trago é da distância que os poemas tem da vida atual da sociedade. Foi proposital, creio, escrever o livro desta forma, como contraponto ao ritmo da sociedade que mau tem tempo para o tédio ou para o ócio. Mas só o poeta pode esclarecer melhor as suas intenções ao propor o livro.
Sobre a questão do tempo passado e do tempo presente, do progresso que chega para alterar a forma de viver, temos este belíssimo trecho do poema Exílio (Banhado):
Este poema é também um bom exemplo do ritmo da poesia de Jorge Pessoto, é possível sentir a lentidão do tempo até o momento em que o progresso chega e industrializa a cidade, transforma aquele mundo anterior, traduzindo bem o sentimento do poeta em relação a esta questão da perda de um jeito de viver único. E, quando percebemos, tudo foi perdido, e o passado é um estorvo no mundo atual feito somente de presente.
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| Trecho final de Exílio (Banhado) |
Este poema é também um bom exemplo do ritmo da poesia de Jorge Pessoto, é possível sentir a lentidão do tempo até o momento em que o progresso chega e industrializa a cidade, transforma aquele mundo anterior, traduzindo bem o sentimento do poeta em relação a esta questão da perda de um jeito de viver único. E, quando percebemos, tudo foi perdido, e o passado é um estorvo no mundo atual feito somente de presente.
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
Sussurros da Meia Noite, publicação do Vale Fantástico
Foi uma boa surpresa o livro Sussurros da Meia-Noite, lançado por quatro autores joseenses, que se intitularam Vale Fantástico, Daniel Pedrosa, Juliana Velonessi, Leandro Reis e Stefânia Andrade. Publicado pela Editora Pandorga.
Um livro composto de 10 contos de terror, muito bem elaborado que demonstra o cuidado da equipe editorial de fazer um bom produto para o mercado de livros e ele é isso mesmo, veio para ser bom e conseguiu. Gostei de todas as histórias, cada uma com a característica do seu autor, e todas no mesmo nível, não há histórias ruins. Ponto positivo para os autores e para a equipe editorial.
Eu gostaria de falar de cada história, dizer o que senti em cada uma e não sei se conseguirei ser preciso o suficiente. Vou tentar.
O que eu gostei muito nas histórias é o uso de paisagens daqui do Vale do Paraíba, daqui de São José dos Campos, ainda que isto não esteja explícito porque a ideia, acredito, era fazer um livro que pudesse ser lido em qualquer lugar, mas as referências estão lá.
O trabalho de edição foi muito bom, uma bonita capa e me diverti com o prefácio e com a escala de medo, um boa ideia.
Pude notar que em quase todos os contos, as referências do cinema e de outros personagens dos filmes de terror estão presentes. Por exemplo, criaturas negras sobrevoando as pessoas lembrando os dementadores do filme do Harry Potter, bonecas que provocam a morte, crianças que parecem bonecas que matam as pessoas da família, referência ao boneco "Chuck", fantasmas, espíritos malignos, bruxas. Deste ponto de vista podemos entender o trabalho editorial. Fazer um trabalho com bons autores, e todos são, indiscutivelmente, mas um trabalho que não seja difícil para o leitor médio compreender as referências porque ele precisa tê-las para entender os contos e assimilá-los bem.
Talvez por isso, quando os autores conseguiram fugir um pouco destas referências, fizeram os melhores contos, destacando para cada um deles os seguintes: "A Pedra da Caveira" de Daniel Pedrosa por relacionar histórias de maus-tratos a escravos com o terror em uma vila, destacando a feliz ideia de colocar a protagonista descendente de uma família que combatia os maus tratos aos escravos. "Insônia" de Leandro Reis, por trabalhar muito bem com a ideia de loucura do personagem, "Tormento" de Stefânia Andrade por trazer o mal como algo de dentro da protagonista, como algo que era imperdoável para si mesma, uma ótima colocação. "O Broche Azul" de Juliana Velonessi, sendo o único conto desta autora, não me permitiu fazer comparações com outros escritos dela, mas achei ótimo também.
Por conta disso, o livro é uma ótima diversão. Recomendo a quem gosta de um bons textos. E espero que não levem a sério, são só histórias criadas para assustar, nada é verdade... será?
Cada um dos autores tem uma característica própria, Daniel Pedrosa gosta de trabalhar mais a ação, Leandro Reis procura um texto mais detalhado, e com Stefânia Andrade, fazem um passeio maior pela mente e consciência, Juliana Velonessi, conta uma boa história envolvendo muitos personagens.
Lendo este livro e retornando ao livro que comentei anteriormente "Niffilins" de Wilson R,.não posso deixar de pensar neste viés mercadológico que se forma aqui em São José dos Campos, vejo com bons olhos que é algo crescente pelos bons textos sendo publicados. Defendo que devemos mesmo formar um mercado consumidor de livros de escritores joseenses e vejo que estes autores, persistindo, com certeza estão conseguindo construir este caminho.
E, mesmo defendendo o mercado consumidor, sei que é este também o entrave para fazer uma literatura de ideias novas, Escrevendo para o mercado, consegue-me mais leitores, mas também reduz-se a possibilidade de inovação e eu gostaria de ver mais discussão e embate dentro da literatura, mais defesas de ideias e de conceitos, mais inovação. Ainda falta isso para nós. Continua valendo o que eu disse de ser um leitor chato e que quer ser chacoalhado pelo livro.
Apesar de serem boas histórias e ótimos textos, não senti que são livros que me acrescentam novas ideias e perspectivas. ainda quero, neste caso, uma história de terror que me dê medo de ler a próxima página.
Um livro composto de 10 contos de terror, muito bem elaborado que demonstra o cuidado da equipe editorial de fazer um bom produto para o mercado de livros e ele é isso mesmo, veio para ser bom e conseguiu. Gostei de todas as histórias, cada uma com a característica do seu autor, e todas no mesmo nível, não há histórias ruins. Ponto positivo para os autores e para a equipe editorial.
Eu gostaria de falar de cada história, dizer o que senti em cada uma e não sei se conseguirei ser preciso o suficiente. Vou tentar.
O que eu gostei muito nas histórias é o uso de paisagens daqui do Vale do Paraíba, daqui de São José dos Campos, ainda que isto não esteja explícito porque a ideia, acredito, era fazer um livro que pudesse ser lido em qualquer lugar, mas as referências estão lá.
O trabalho de edição foi muito bom, uma bonita capa e me diverti com o prefácio e com a escala de medo, um boa ideia.
Pude notar que em quase todos os contos, as referências do cinema e de outros personagens dos filmes de terror estão presentes. Por exemplo, criaturas negras sobrevoando as pessoas lembrando os dementadores do filme do Harry Potter, bonecas que provocam a morte, crianças que parecem bonecas que matam as pessoas da família, referência ao boneco "Chuck", fantasmas, espíritos malignos, bruxas. Deste ponto de vista podemos entender o trabalho editorial. Fazer um trabalho com bons autores, e todos são, indiscutivelmente, mas um trabalho que não seja difícil para o leitor médio compreender as referências porque ele precisa tê-las para entender os contos e assimilá-los bem.Talvez por isso, quando os autores conseguiram fugir um pouco destas referências, fizeram os melhores contos, destacando para cada um deles os seguintes: "A Pedra da Caveira" de Daniel Pedrosa por relacionar histórias de maus-tratos a escravos com o terror em uma vila, destacando a feliz ideia de colocar a protagonista descendente de uma família que combatia os maus tratos aos escravos. "Insônia" de Leandro Reis, por trabalhar muito bem com a ideia de loucura do personagem, "Tormento" de Stefânia Andrade por trazer o mal como algo de dentro da protagonista, como algo que era imperdoável para si mesma, uma ótima colocação. "O Broche Azul" de Juliana Velonessi, sendo o único conto desta autora, não me permitiu fazer comparações com outros escritos dela, mas achei ótimo também.
Por conta disso, o livro é uma ótima diversão. Recomendo a quem gosta de um bons textos. E espero que não levem a sério, são só histórias criadas para assustar, nada é verdade... será?
Cada um dos autores tem uma característica própria, Daniel Pedrosa gosta de trabalhar mais a ação, Leandro Reis procura um texto mais detalhado, e com Stefânia Andrade, fazem um passeio maior pela mente e consciência, Juliana Velonessi, conta uma boa história envolvendo muitos personagens.
Lendo este livro e retornando ao livro que comentei anteriormente "Niffilins" de Wilson R,.não posso deixar de pensar neste viés mercadológico que se forma aqui em São José dos Campos, vejo com bons olhos que é algo crescente pelos bons textos sendo publicados. Defendo que devemos mesmo formar um mercado consumidor de livros de escritores joseenses e vejo que estes autores, persistindo, com certeza estão conseguindo construir este caminho.
E, mesmo defendendo o mercado consumidor, sei que é este também o entrave para fazer uma literatura de ideias novas, Escrevendo para o mercado, consegue-me mais leitores, mas também reduz-se a possibilidade de inovação e eu gostaria de ver mais discussão e embate dentro da literatura, mais defesas de ideias e de conceitos, mais inovação. Ainda falta isso para nós. Continua valendo o que eu disse de ser um leitor chato e que quer ser chacoalhado pelo livro.
Apesar de serem boas histórias e ótimos textos, não senti que são livros que me acrescentam novas ideias e perspectivas. ainda quero, neste caso, uma história de terror que me dê medo de ler a próxima página.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
A Literatura de Entretenimento de Wilson R.
Recentemente, li o livro "Niffilins, Os Filhos de Deus" do autor joseense Wilson R., presidente da Academia Joseense de Letras e gostei muito do livro.
Como um livro de entretenimento é realmente muito bom de se ler, e não deve nada para qualquer "Best-seller" internacional, ouso dizer que seria muito fácil uma produção "Hollywoodiana" em cima da história. O autor tem muitos méritos, Wilson R. sabe escrever um bom texto, que prende o leitor, aproveita-se muito bem de um sem número de conhecimentos superficiais, em especial aqueles que uma pessoa formada na civilização ocidental possui como noções de antigas civilizações, conhecimentos bíblicos e um pouco de conhecimento científico. Aliado a isso, ele inclui algumas noções de seres e divindades menos conhecidos de várias mitologias.
Desta forma, constrói seu livro contando com muitos estereótipos para a história e para os personagens, como, por exemplo, a existência de um escolhido capaz de fazer coisas que os outros não conseguem, e o fato de que todos os envolvidos sabem que o escolhido é importante e teve sua vida orientada, acompanhada e algumas vezes manipulada pelos seres e divindades. Temos os demônios todos com o estereótipo de demônio, com chifres, unhas grandes, peludos e feios; o anjo como deve ser um anjo, alto, louro, belo, vestindo túnica azul clara; a mulher do escolhido como extremamente bela e por aí vai.
O autor soube lidar com o clássico estilo de livro de ação, a história vai tomando o rumo e se direcionando para o "grand finale" no entanto, faltou um pouco mais de acentuação do ponto alto do livro que seria a esperada guerra entre os habitantes da Terra e os Niffilins, houve este ponto, mas creio que a dificuldade de descrever tirou um pouco da emoção deste momento.
Wilson R., portanto, vem se dedicando a esta literatura do entretenimento com elementos fantásticos, a exemplo do que faz também outros autores da cidade como, por exemplo, Leandro Reis, também um excelente autor. Acredito e desejo mesmo que ele consiga muito sucesso com a sua literatura.
Este tipo de escrita funciona, para a literatura, como um filme de ação do tipo "Os Vingadores" funciona para o cinema, ou seja, a gente curte (assiste ou lê) e fica satisfeito porque aconteceu tudo do jeito que tinha de ser, os vilões são superados e vencidos apesar de todo o poder de destruir o mundo um milhão de vezes que tem, os mocinhos vencem sempre mesmo estando em tremenda desvantagem afinal têm o que precisam para vencer, e a gente tem a certeza de que o mundo continua com o mesmo dualismo, as coisas no mesmo lugar. Assim, o cérebro não precisa pensar demais para aceitar que é tudo sempre a mesma coisa, o mundo é o mesmo, os estereótipos continuam firmes e fortes.
E é isto que justamente me incomoda como leitor. São filmes e livros que não me acrescentam, não me tiram da mesmice, dão-me satisfação e prazer mas não me levam a ter uma outra atitude. Mas eu sou um leitor chato, que quer ser chacoalhado, que quer ver as minhas bases balançando, que quer ver uma escrita diferente na literatura e quer a literatura como forma de transformação do mundo e das pessoas, quer a literatura participando ativamente da construção de um mundo melhor, de mais aceitação e menos discriminação, de mais bondade e menos intolerância, de mais compreensão e menos ignorância. Tudo isso não encontrei no livro de Wilson R.
Como um livro de entretenimento é realmente muito bom de se ler, e não deve nada para qualquer "Best-seller" internacional, ouso dizer que seria muito fácil uma produção "Hollywoodiana" em cima da história. O autor tem muitos méritos, Wilson R. sabe escrever um bom texto, que prende o leitor, aproveita-se muito bem de um sem número de conhecimentos superficiais, em especial aqueles que uma pessoa formada na civilização ocidental possui como noções de antigas civilizações, conhecimentos bíblicos e um pouco de conhecimento científico. Aliado a isso, ele inclui algumas noções de seres e divindades menos conhecidos de várias mitologias.
Desta forma, constrói seu livro contando com muitos estereótipos para a história e para os personagens, como, por exemplo, a existência de um escolhido capaz de fazer coisas que os outros não conseguem, e o fato de que todos os envolvidos sabem que o escolhido é importante e teve sua vida orientada, acompanhada e algumas vezes manipulada pelos seres e divindades. Temos os demônios todos com o estereótipo de demônio, com chifres, unhas grandes, peludos e feios; o anjo como deve ser um anjo, alto, louro, belo, vestindo túnica azul clara; a mulher do escolhido como extremamente bela e por aí vai.
O autor soube lidar com o clássico estilo de livro de ação, a história vai tomando o rumo e se direcionando para o "grand finale" no entanto, faltou um pouco mais de acentuação do ponto alto do livro que seria a esperada guerra entre os habitantes da Terra e os Niffilins, houve este ponto, mas creio que a dificuldade de descrever tirou um pouco da emoção deste momento.
Wilson R., portanto, vem se dedicando a esta literatura do entretenimento com elementos fantásticos, a exemplo do que faz também outros autores da cidade como, por exemplo, Leandro Reis, também um excelente autor. Acredito e desejo mesmo que ele consiga muito sucesso com a sua literatura.
Este tipo de escrita funciona, para a literatura, como um filme de ação do tipo "Os Vingadores" funciona para o cinema, ou seja, a gente curte (assiste ou lê) e fica satisfeito porque aconteceu tudo do jeito que tinha de ser, os vilões são superados e vencidos apesar de todo o poder de destruir o mundo um milhão de vezes que tem, os mocinhos vencem sempre mesmo estando em tremenda desvantagem afinal têm o que precisam para vencer, e a gente tem a certeza de que o mundo continua com o mesmo dualismo, as coisas no mesmo lugar. Assim, o cérebro não precisa pensar demais para aceitar que é tudo sempre a mesma coisa, o mundo é o mesmo, os estereótipos continuam firmes e fortes.
E é isto que justamente me incomoda como leitor. São filmes e livros que não me acrescentam, não me tiram da mesmice, dão-me satisfação e prazer mas não me levam a ter uma outra atitude. Mas eu sou um leitor chato, que quer ser chacoalhado, que quer ver as minhas bases balançando, que quer ver uma escrita diferente na literatura e quer a literatura como forma de transformação do mundo e das pessoas, quer a literatura participando ativamente da construção de um mundo melhor, de mais aceitação e menos discriminação, de mais bondade e menos intolerância, de mais compreensão e menos ignorância. Tudo isso não encontrei no livro de Wilson R.
terça-feira, 21 de julho de 2015
Anarcopoesia de Paulo Roxo Barja
http://paulobarja.blogspot.com.br/
Em 2014, Paulo Roxo Barja, publicou dois pequenos livros de poesia, Anarcopoesia e Sonetos. Falarei aqui do que senti em Anarcopoesia.
Anarcopoesia começa com o poema "A Cobra":
Este poema me chamou a atenção com a construção da cobra, que remete aos protestos de junho de 2013, chamados de Jornadas de Junho. No poema, a cobra vai crescendo com a multidão até atingir mais de 3 km e tomar a rodovia. Referência clara à noite em que a Rodovia Presidente Dutra foi fechada pelos protestos de junho em São José dos Campos. Claro que faz referência à lenda da Cobra Grande, comum em todo o país, em geral, esta lenda conta que uma cobra gigantesca vivia embaixo da cidade, saía à noite e comia pessoas. De certa forma, o poeta faz esta junção, a cobra de junho de 2013 saía à noite e era formada de pessoas mas a questão mais importante que ele coloca foram os versos:"a cobra/ tem 2 km/ muitas cabeças/ nenhuma cabeça/ será que pensa?". Sei que o espaço do papel não comporta bem a ideia do poema, mas eu pensei este poema em um movimento sinuoso como uma cobra, mexendo-se entre as ruas, seria interessante para alguém que gosta de fazer vídeos aproveitar a ideia.
Apesar do título ser Anarcopoesia, o autor poderia ser muito mais anárquico do que realmente foi, em Oração a Boal e Oração do Artista, revela muita sua influência religiosa, mas são boas homenagens aos artistas que fazem de sua arte sua profissão de fé fazendo certa analogia com o futebol de "Neymar" (Disso não gostei porque não sou santista). É uma brincadeira minha, o autor pode citar quem ele entende como artista (lembrando que Paulo Barja é santista, daí vem a citação ao Neymar).
Gostei muito do "Poemeto não muito Erudito sobre Língua Portuguesa" em que PRB (as iniciais parecem nome de partido político!, acho melhor usar PRBarja), revela muito da sua anarcopoesia e da sua ironia, lembrando que a marca do livro é a ironia, a graça, em que o autor tem sido muito bom, em poemas como "Comentários a uma (Auto) Crítica", "Defesa do Lobo" e outros, mas no poemeto ele foi excelente, a dúvida, claro, ele sabe qual é o uso correto da língua, mas ironiza muito bem o excesso de erudição.
Na sequência, PRBarja vem com um poema para fazer rir, e muito, em sua homenagem ao poeta Laurindo Rabelo "Quando o Cume dá Poesia" e também no poema "Os Cães também têm suas Prioridades". Só fazendo a referência, Laurindo Rabelo é um poeta considerado o Bocage brasileiro, ou herdeiro direto de Gregório de Matos Guerra, por seus poemas obscenos e pornográficos, hetero e homossexuais. Interessante é notar a diferença de visão dos pederastas da época de meados do século XIX, que eram tratados como parceiros sexuais iguais às prostitutas e os homens de então não se sentiam mais ou menos homens por os procurarem, visão social totalmente diferente deste início de século XXI.
Paulo Barja faz poesia bem certinha, contrariando o título do livro, para mim, faltou bastante da anarquia sugerida no título. Seus poemas são corretos, trabalhados, versados e pensados mas falta um elemento a mais, algo que torne a sua poesia marcante, falta esta anarquia mais acentuada. PRB é excelente quando se propõe a ironia mas ele parece temer que esta ironia seja ofensiva e acaba contido. Para mim, ele precisava ser mais agressivo, mais terno, mais ácido, mais lírico, ele precisa colocar mais vigor, força, emoção na sua poesia, falta uma pitada de ousadia. Em alguns momentos, eu sentia que o poema ia me apunhalar mas depois passava raspando. Talvez seja um defeito meu querer que o poema me fira como se fosse uma faca, ou me balance como se fosse um terremoto, ou me derreta como se fosse ácido, ou me acaricie como se fosse amor, ou me excite como se fosse sexo. Mas este defeito de querer mais é para dizer que Paulo Barja está neste projeto, fugindo da literatura de cordel, da qual ele é especialista, o livro Anarcopoesia é um bom trabalho, falta um pouquinho a mais de ousadia ou anarquia, que aguardo nos próximos trabalhos.
É importante ressaltar que Paulo Barja, em outros trabalhos, fala de assuntos da atualidade em sua poesia, há vários assuntos que acontecem e logo ele nos brinda com um poema, lembrando o caso do Pinheirinho, onde rapidamente saiu um cordel sobre a expulsão dos moradores do Pinheirinho. Nisso, ele tem feito um trabalho muito importante e eu até usaria o termo de que ele faz uma Poesia Crônica ou seria uma Crônica Poética? O fato é que ele faz poesia de assuntos cotidianos, de fatos acontecidos, registrando tudo isso, como no dia em que o Papa Bento XVI renunciou e, no mesmo dia, ele fez uma marcha de carnaval (era terça-feira de carnaval, 11/02/2013).
Paulo Barja também publicou o livro Sonetos, contendo 93 sonetos em que trata de diversos temas, em especial o amor e também de vários outros temas, como homenagens poéticas, ciência, poesia. Em meio a tantos, alguns me chamaram a atenção, "Gata de Alice", "Soneto Comestível", "Soneto Científico" e "Soneto Numérico". Poderia enumerar mais alguns mas como o poeta colocou tantos sonetos juntos, dificultou demais a minha leitura, pois a sua forma engessada não me é agradável.
Então, fica o mesmo problema que tenho visto em vários livros dos autores que comento, a vontade de publicar, no mesmo livro, uma grande quantidade de poemas. Fica a sugestão de publicar menos poemas e tratar cada livro como uma obra de arte.
Em 2014, Paulo Roxo Barja, publicou dois pequenos livros de poesia, Anarcopoesia e Sonetos. Falarei aqui do que senti em Anarcopoesia.
Anarcopoesia começa com o poema "A Cobra":
Este poema me chamou a atenção com a construção da cobra, que remete aos protestos de junho de 2013, chamados de Jornadas de Junho. No poema, a cobra vai crescendo com a multidão até atingir mais de 3 km e tomar a rodovia. Referência clara à noite em que a Rodovia Presidente Dutra foi fechada pelos protestos de junho em São José dos Campos. Claro que faz referência à lenda da Cobra Grande, comum em todo o país, em geral, esta lenda conta que uma cobra gigantesca vivia embaixo da cidade, saía à noite e comia pessoas. De certa forma, o poeta faz esta junção, a cobra de junho de 2013 saía à noite e era formada de pessoas mas a questão mais importante que ele coloca foram os versos:"a cobra/ tem 2 km/ muitas cabeças/ nenhuma cabeça/ será que pensa?". Sei que o espaço do papel não comporta bem a ideia do poema, mas eu pensei este poema em um movimento sinuoso como uma cobra, mexendo-se entre as ruas, seria interessante para alguém que gosta de fazer vídeos aproveitar a ideia.
Apesar do título ser Anarcopoesia, o autor poderia ser muito mais anárquico do que realmente foi, em Oração a Boal e Oração do Artista, revela muita sua influência religiosa, mas são boas homenagens aos artistas que fazem de sua arte sua profissão de fé fazendo certa analogia com o futebol de "Neymar" (Disso não gostei porque não sou santista). É uma brincadeira minha, o autor pode citar quem ele entende como artista (lembrando que Paulo Barja é santista, daí vem a citação ao Neymar).
Gostei muito do "Poemeto não muito Erudito sobre Língua Portuguesa" em que PRB (as iniciais parecem nome de partido político!, acho melhor usar PRBarja), revela muito da sua anarcopoesia e da sua ironia, lembrando que a marca do livro é a ironia, a graça, em que o autor tem sido muito bom, em poemas como "Comentários a uma (Auto) Crítica", "Defesa do Lobo" e outros, mas no poemeto ele foi excelente, a dúvida, claro, ele sabe qual é o uso correto da língua, mas ironiza muito bem o excesso de erudição.
Na sequência, PRBarja vem com um poema para fazer rir, e muito, em sua homenagem ao poeta Laurindo Rabelo "Quando o Cume dá Poesia" e também no poema "Os Cães também têm suas Prioridades". Só fazendo a referência, Laurindo Rabelo é um poeta considerado o Bocage brasileiro, ou herdeiro direto de Gregório de Matos Guerra, por seus poemas obscenos e pornográficos, hetero e homossexuais. Interessante é notar a diferença de visão dos pederastas da época de meados do século XIX, que eram tratados como parceiros sexuais iguais às prostitutas e os homens de então não se sentiam mais ou menos homens por os procurarem, visão social totalmente diferente deste início de século XXI.
Paulo Barja faz poesia bem certinha, contrariando o título do livro, para mim, faltou bastante da anarquia sugerida no título. Seus poemas são corretos, trabalhados, versados e pensados mas falta um elemento a mais, algo que torne a sua poesia marcante, falta esta anarquia mais acentuada. PRB é excelente quando se propõe a ironia mas ele parece temer que esta ironia seja ofensiva e acaba contido. Para mim, ele precisava ser mais agressivo, mais terno, mais ácido, mais lírico, ele precisa colocar mais vigor, força, emoção na sua poesia, falta uma pitada de ousadia. Em alguns momentos, eu sentia que o poema ia me apunhalar mas depois passava raspando. Talvez seja um defeito meu querer que o poema me fira como se fosse uma faca, ou me balance como se fosse um terremoto, ou me derreta como se fosse ácido, ou me acaricie como se fosse amor, ou me excite como se fosse sexo. Mas este defeito de querer mais é para dizer que Paulo Barja está neste projeto, fugindo da literatura de cordel, da qual ele é especialista, o livro Anarcopoesia é um bom trabalho, falta um pouquinho a mais de ousadia ou anarquia, que aguardo nos próximos trabalhos.
É importante ressaltar que Paulo Barja, em outros trabalhos, fala de assuntos da atualidade em sua poesia, há vários assuntos que acontecem e logo ele nos brinda com um poema, lembrando o caso do Pinheirinho, onde rapidamente saiu um cordel sobre a expulsão dos moradores do Pinheirinho. Nisso, ele tem feito um trabalho muito importante e eu até usaria o termo de que ele faz uma Poesia Crônica ou seria uma Crônica Poética? O fato é que ele faz poesia de assuntos cotidianos, de fatos acontecidos, registrando tudo isso, como no dia em que o Papa Bento XVI renunciou e, no mesmo dia, ele fez uma marcha de carnaval (era terça-feira de carnaval, 11/02/2013).
Paulo Barja também publicou o livro Sonetos, contendo 93 sonetos em que trata de diversos temas, em especial o amor e também de vários outros temas, como homenagens poéticas, ciência, poesia. Em meio a tantos, alguns me chamaram a atenção, "Gata de Alice", "Soneto Comestível", "Soneto Científico" e "Soneto Numérico". Poderia enumerar mais alguns mas como o poeta colocou tantos sonetos juntos, dificultou demais a minha leitura, pois a sua forma engessada não me é agradável.
Então, fica o mesmo problema que tenho visto em vários livros dos autores que comento, a vontade de publicar, no mesmo livro, uma grande quantidade de poemas. Fica a sugestão de publicar menos poemas e tratar cada livro como uma obra de arte.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
VIRAVIDA DE ROSÂNGELA RIBEIRO
Ler um livro de poemas é decifrar um novo universo contido dentro do poeta que o escreveu e o tornou público. É algo complexo que exige leituras e releituras, mas acho que já disse isso em algum momento. Muitas vezes eu não consigo chegar no âmago do universo proposto.
Rosângela Ribeiro me deixou com a sensação de que há muito mais dentro de sua alma poética do que o que está contido em Viravida, profunda conhecedora das palavras e seus significados, ela traz muitos vocábulos que não encontramos no dia-a-dia e precisamos recorrer ao dicionário algumas vezes.
Ela usa seu conhecimento para brincar ao mesmo tempo em que mergulha, seus poemas são curtos, mínimos, seus versos não tem métrica e nem utiliza rimas, ou estas são muito raras. A força de sua poesia está no significado de cada palavra, muitas vezes, é como se cada poema possuísse uma palavra única que o definisse e o resto girasse em torno dela.
Falarei de alguns poemas para exemplificar o que compreendi.
Começa o livro com o interessante "Indivíduo" do qual destaco que se veja a página do livro porque o trabalho gráfico faz parte dele ao mostrar o rosto da poetisa dividido em muitas partes. Obviamente, ela não fala de si mesma mas de todas as mulheres, em que usa o recurso do prefixo "in" separado da palavra original, como a afirmar que a mulher pode ser a qualidade proposta ou pode não ser, dependerá do momento. Perdoamos e damos a licença poética para os "enes" antes de "pês". Para mim, a magia do poema está no uso das palavras "interstício" e "insétil", palavras que, diferente de todas as outras do poema, não podem ser escritas com o prefixo "in" separado porque elas não tem este prefixo. Interstício, que é o intervalo entre dois momentos onde a mulher pode ser ou não ser, e insétil que significa indivisível e resume tudo. Indivisível tem o prefixo "in" mas ela quis insétil para mostrar que a mulher, dependendo do momento, pode ser muitas mas ela nunca poderá ser dividida, ela é única, cada uma é única em todas as suas possibilidades.
Outro poema interessante é "Mulheragem", com o uso da palavra "florífago", que significa "aquele que se alimenta de flores", no poema, a mulher faz parte da mãe-terra e por isso alimenta o sonhador, o homem, que é o que se alimenta destas flores-mulheres.
A poetisa utiliza bastante o conflito de opostos para fazer a sua poesia, vemos o jogo de "noite-dia" em "Meato", retornando ao primeiro poema, do "ser" e "não ser", e, ao longo do livro, encontramos outros exemplos como "silêncio-canção"; "esconder-revelar"; "Tino e Desatino", "vida-morte", e outro poema interessante que é "Inviso", onde ela inova e vem com "inviso-invite-inflija-insurja" e vou deixar para vocês o lerem e encontrar nele mais do que dicotomias, e que me leva a crer que não é apenas a questão de conflito, não é só preocupação com o ser e não ser mas, principalmente, com a natureza das coisas, das pessoas e da vida.
Também achei muito bom o poema "Palavra" em que as palavras escritas na vertical e de cima para baixo, parecem escorrer pelo papel. Neste poema, o uso da palavra "palavra" escrita logo abaixo e com ligeira angulação, acaba, graficamente, dando suporte para o poema. É um poema para ser lido e visto, a palavra dando suporte a tudo.
É isso, Rosângela Ribeiro fez um bom livro, combinado e amparado pelo belo trabalho gráfico e estético de João Manccini, e deixo para vocês um poema que não compreendi totalmente:
Ele parece dizer muito mais do que estas seis palavras significam, tem o conflito da poetisa "Mar-Eido". Tenho minhas teorias mas gostaria que os leitores me auxiliassem nesta interpretação e lessem o livro para compreender tudo isso e entrar neste mundo.
Rosângela Ribeiro me deixou com a sensação de que há muito mais dentro de sua alma poética do que o que está contido em Viravida, profunda conhecedora das palavras e seus significados, ela traz muitos vocábulos que não encontramos no dia-a-dia e precisamos recorrer ao dicionário algumas vezes.
Ela usa seu conhecimento para brincar ao mesmo tempo em que mergulha, seus poemas são curtos, mínimos, seus versos não tem métrica e nem utiliza rimas, ou estas são muito raras. A força de sua poesia está no significado de cada palavra, muitas vezes, é como se cada poema possuísse uma palavra única que o definisse e o resto girasse em torno dela.
Falarei de alguns poemas para exemplificar o que compreendi.
Começa o livro com o interessante "Indivíduo" do qual destaco que se veja a página do livro porque o trabalho gráfico faz parte dele ao mostrar o rosto da poetisa dividido em muitas partes. Obviamente, ela não fala de si mesma mas de todas as mulheres, em que usa o recurso do prefixo "in" separado da palavra original, como a afirmar que a mulher pode ser a qualidade proposta ou pode não ser, dependerá do momento. Perdoamos e damos a licença poética para os "enes" antes de "pês". Para mim, a magia do poema está no uso das palavras "interstício" e "insétil", palavras que, diferente de todas as outras do poema, não podem ser escritas com o prefixo "in" separado porque elas não tem este prefixo. Interstício, que é o intervalo entre dois momentos onde a mulher pode ser ou não ser, e insétil que significa indivisível e resume tudo. Indivisível tem o prefixo "in" mas ela quis insétil para mostrar que a mulher, dependendo do momento, pode ser muitas mas ela nunca poderá ser dividida, ela é única, cada uma é única em todas as suas possibilidades.Outro poema interessante é "Mulheragem", com o uso da palavra "florífago", que significa "aquele que se alimenta de flores", no poema, a mulher faz parte da mãe-terra e por isso alimenta o sonhador, o homem, que é o que se alimenta destas flores-mulheres.
A poetisa utiliza bastante o conflito de opostos para fazer a sua poesia, vemos o jogo de "noite-dia" em "Meato", retornando ao primeiro poema, do "ser" e "não ser", e, ao longo do livro, encontramos outros exemplos como "silêncio-canção"; "esconder-revelar"; "Tino e Desatino", "vida-morte", e outro poema interessante que é "Inviso", onde ela inova e vem com "inviso-invite-inflija-insurja" e vou deixar para vocês o lerem e encontrar nele mais do que dicotomias, e que me leva a crer que não é apenas a questão de conflito, não é só preocupação com o ser e não ser mas, principalmente, com a natureza das coisas, das pessoas e da vida.
Também achei muito bom o poema "Palavra" em que as palavras escritas na vertical e de cima para baixo, parecem escorrer pelo papel. Neste poema, o uso da palavra "palavra" escrita logo abaixo e com ligeira angulação, acaba, graficamente, dando suporte para o poema. É um poema para ser lido e visto, a palavra dando suporte a tudo.
É isso, Rosângela Ribeiro fez um bom livro, combinado e amparado pelo belo trabalho gráfico e estético de João Manccini, e deixo para vocês um poema que não compreendi totalmente:
Âncora
Mar icônico
Náufrago homem
Eido rotativo
segunda-feira, 28 de julho de 2014
A POESIA VULCÂNICA DE MARCOS GROZA
Do Buraco à poça é um livro difícil de se ler e de se compreender. A grande quantidade de neologismos, metáforas, inversões e frases que parecem que não tem um fim ou um sentido é um desafio. Aviso a todos, a leitura é difícil, não é necessário dicionário mas é preciso muita imaginação e dedicação, leituras e releituras, tentativas de entrar num mundo muito diferente. Numa poesia muitas vezes rebuscada e de frases compridas, que o leitor terá de completá-las.
Marcus Groza faz poesia como um vulcão em erupção, as frases vão jorrando da maneira que vêm à mente e se despejam quentes no papel com o intuito de buscar as emoções mais entranhadas do leitor e aí vem a necessidade verbal, pois esta emoção entranhada só pode ser retirada quando a poesia é lida em voz alta, com frases impactantes apoiadas pelo ritmo e pela respiração da leitura. Ler um poema destes de forma linear matará a poesia e o leitor de incompreensão porque a grande força é a oralidade.
Acho que foi por isso que demorou muito para eu compreender este livro. Eu fui lendo e relendo e tentava entender o que significavam frases como no primeiro poema do livro, "Vocação":
"eu vim para dizer obviedades" e depois mais para a frente: "Arranco do papel um única clave de sol e a devolvo qual aranha boa a um pentagrama de vento".
Vou citar aqui pelo menos uma dezena de exemplos de frases:
"aceno um rio/ desdobrado/ cavalo" (Da Janela, pg. 15);
"A fruta-pão que dava no pé de guerra/ pântanos e túneis espantaram/ depois de engolirem as feras/ e o verde todo gramado" (Oroborus, nome da fruta, pg 20);
"e, dia por outro, me converto, selenita da lua refletida nas águas" (Cinco cantos ao som da ressaca, pg 22);
"Tuas opiniões nasceram gêmeas dos furadores de papel/ e dos grampeadores pouco usados sobre a mesa" (Autorretrato, pg 28);
"o filho do contra que nasceu pela culatra/ cutelo azul fosco que não reflete a luz da lua", (Pranto chorado sobre o túmulo de um inimigo, pg 38);
"Pro nosso ralo de fundo costura um pano/ me deita nas esquinas urina e muco";(Súplicas, pg 43);
"você seca as avalanches fazendo montes na escada/ surripiando a pele dos meus irmãos", (Deslocanto, pg 45)
"voa talvez toupeira pelo céu/ encoberto de vaginas/ ferrenho das gengivas/ onde cagou e adormeceu", (Sob Saturno, pg 81);
Então, acabei por compreender que o poeta tem este trabalho visceral, jorrando palavras que, muitas vezes, parecem sem sentido mas que, no conjunto do poema, com o ritmo e a sonoridade pega o ouvinte e o encanta, trazendo-lhe emoções diversas e o chacoalhando por dentro, ainda que ele não entenda o porquê.
Em leituras profundas dos poemas, minimizando a oralidade poética e buscando um sentido na poesia (se é que isso é possível no caso de Groza) encontro um poeta que procura estabelecer sua relação com o mundo, com a pessoa amada e com os próprios pensamentos, onde começamos com o próprio título estranho, "Do buraco à poça", estranho e tão óbvio que tentamos enxergar mais do que é, para se chegar na poça, precisa-se encher o buraco com água que pode ser uma enxurrada, que deve ser a maneira preferida do poeta, ou, voltando ao título, com a lava quente do vulcão que jorra do poeta.
Com todas estas emoções que surgem com a audição dos poemas, e com todos os jogos e figuras de linguagem extremamente interessantes e fortes, o livro faz de Marcos Groza um poeta com grande capacidade que precisaria, em muitos casos, retrabalhar o poema que jorrou do seu vulcão e lapidar as pedras brutas-diamantes que foram lançadas, eles estão aí, um pouco de lapidação os tornarão mais belos.
Nota: em troca de ideias com Marcus Groza, o autor me informou que pensa e repensa cada verso, então, fica aqui meu reconhecimento ainda maior pelo trabalho dele porque isso torna ainda mais forte a sua busca pela emoção do leitor/ouvinte. Corrijo aqui o comentário que fiz e agradeço pelas informações que ele me passou sobre o seu fazer poético, tornando ainda mais importante o trabalho que ele faz.
Nota: em troca de ideias com Marcus Groza, o autor me informou que pensa e repensa cada verso, então, fica aqui meu reconhecimento ainda maior pelo trabalho dele porque isso torna ainda mais forte a sua busca pela emoção do leitor/ouvinte. Corrijo aqui o comentário que fiz e agradeço pelas informações que ele me passou sobre o seu fazer poético, tornando ainda mais importante o trabalho que ele faz.
Trago então, um exemplo de sua poesia:
"Autorretrato"
Tiras pouco tão pouco leite da terra
que tuas mãos têm cheiro de suor velho
e o calor que te derrete não basta
para esquentar o pão cru
que por anos carregaste nos braços.
Este sol entanto muito suficiente é (e não ignoras)
para pôr gotas de suor no lóbulo das orelhas
pingando a golpes de pequenas frustrações
como brincos derretendo
sobre o chão que ainda podes pisar.
Melhor fora se não compreendesses
os bilhetes que adolescente enviaste a ti mesmo
enfiando nos bolsos das calças velhas que agora usas por moda
e ainda os trazes repletos como se de mensagens cifradas
de ágrafos e prolixos.
Podes lavar os veios que tens na palma da mão
mas a pele não vela moeda fiação destino
se enfeita apenas de dobras e cicatrizes
sulcando chão entre as pedras
desse trejeito teu de olhos amargos
Tuas opiniões nasceram gêmeas dos furadores de papel
e dos grampeadores pouco usados sobre a mesa
tatuaste a palavra amor nas pupilas com radiações de silício
que pesavam teus olhos como um telefone ocupado
as vontades obscenas terá que cometer porém.
Neste poema, autorretrato pode ser que o poeta queira dizer que ainda não retirou tudo o que pode se si mesmo, ainda não deu o seu máximo, que está em construção, e este calor que ele sente é forte para a transpiração mas ainda não é forte para aumentar a sua criação,o pão cru, a massa poética que precisa fermentar e crescer, talvez ele se sentisse melhor se não ouvisse o chamado adolescente da poesia, mas agora, como poeta, ele tem de amar e praticar as suas vontades obscenas, que, diga-se, não são obrigatoriamente pornográficas mas sim, sem pudor, sem medo de ser poeta.
Ler Marcos Groza é fundamental, é difícil, mas é uma voz muito forte. Força maior que se encontra no verbal, na audição, como um vulcão que gera um furacão interno.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Olhos de Vidro para enxergar por dentro de si
Venho arriscar-me muito ao tecer comentários deste livro interessante de Andrea de Barros. Afinal, falar de uma Mestre em Literatura e Crítica Literária pela USP não será tarefa fácil, mas, eu gosto de correr riscos e vale a pena falar deste pois tem bastante qualidade poética.
Este pequeno livro, "Para Seus Olhos de Vidro", lançado em Março de 2013 traz dentro uma dor aguda dos amores experimentados, vividos, com a certeza de que nenhum amor é perdido, tudo é conhecimento adquirido e transformação de vida, por piores que sejam as experiências. Lendo, tentei encontrar o tema predominante e fiquei em dúvida se o livro tratava de amores ou da resiliência, pois, percebe-se no fundo que a autora se mostra viva, firme, resistente, apesar de tudo o que sofreu. Ela não expôs apenas o sofrimento, o qual podemos deduzir, mas a sua resistência a ele.
Vejamos que ela começa o livro com:
Idade
É o tempo
Que me corta os dias
O mesmo
Que me conta os casos
Dos quandos
Que eu não mais ouvia
Aos comos
Sem porquês dos atos
É dele
Meu desenho à pele
O mapa
Pelo qual escapo
Da velha juventude eterna
Ao tempo
Meu melhor bom dia
Sem medo do que o sol me tira
Me farto do que a luz me soma
Ao dizer que o tempo vai lhe cortando mas ainda assim ela lhe dá o seu melhor bom dia sem medo, a poetisa vem dizer que resiste, que ele pode trazer o que for mas ela não terá mais medo do que lhe for tirado porque aprender a viver com o que lhe foi acrescentado (as experiências acrescentam).
Sobre este poema ainda vou acrescentar a forma de usar sílabas fracas e fortes no sentido de dar ritmo ao texto, veja que em "é o tempo", temos a sílaba poética "é o", fraca, depois, "tem-", forte, no verso seguinte "que / lhe ", fraco, fraco, "cor-", forte, "ta-os ", fraco, "dias", forte, ficando o ritmo, fraco, forte, fraco, fraco, forte, fraco, forte, melhorando, colocando f minúsculo para fraco e f maiúsculo para forte, o ritmo do poema é: f F f f F f F f F f f F f F.
A poetisa utilizou-se muito da forma em seus poemas, alterna versos curtos e longos, faz estrofes com versos com métrica, mistura um e outro mas não fica restrita à forma, em muitos poemas, usa de construções que mais se assemelham a um texto em prosa, como em
Último
Eu não deixei de amar. Só me libertei de você.
Só atravessei a vidraça.
Só rompi os pontos, jorrei o verbo, cravei os caninos nos seus adjetivos.
Me insurgi.
(...)
Retornando à questão da resiliência, ela traz também a ambiguidade do desejo, ora mostra-se ávida e cheia de amor, apaixonada, ora, mostra-se decepcionada e amargura, vamos aos exemplos:
Em " Presença n.º 5": "Eu amo o cara que passa/ longe/ Em minha memória".
Em "Para seus olhos de vidro": "E quando me olha/ me faz invisível"
Em "Primeiro": "Saudade dos seus olhos na minha pele/"
Em "Vermelho Verdade": "Não foi pra você/ A melhor poesia/"
Em "Véspera": "Medo de me sentar na banqueta e pegar as doenças da sua família".
Prevalece sempre o amor vivido e desejado e as marcas que ele trouxe e deixou na poetisa, as dores, as lembranças que não saem da memória e continuam ainda que o amor tenha acabado. Ao percorrer o livro, é este amor muito desejado e pouco realizado que fica em evidência, dando a entender que a dor do amor vivido foi maior do que a alegria que dele veio, onde senti bastante vigor em poemas mais duros como "Último", "Cônjuge", "Véspera". Ao encerrar com "Adendo", ela mostra bem que entende melhor este amor vivido e sentido e continua se entregando a ele apesar de tudo.
Não posso deixar de destacar o belo poema que ela fez para sua avó, Augusta em que começa com estes belos versos: "Eram seis... e a rede trançava fiapos de luz da janela tardia", e depois encerra com: "Foi moça / Augusta Maria / Sem se dar conta / Que o tempo só / ia."
A poesia de Andrea de Barros mostrou-se bastante intimista, voltada para suas próprias experiências amorosas, onde pouco identifiquei elementos de vínculo com seu tempo ou seu lugar, é uma poesia dela, de sua existência, de suas experiências que, lógico, podem ser compartilhadas e compreendidas pelos outros. Isto ficou evidente em "No Escuro" em que diz: "Se a luz se apagar / ainda serei eu / no espelho?". Os elementos que encontrei de referências são bastante urbanos e universais, o que me leva a crer que o livro tem a função de expurgar e esmiuçar o caso específico das emoções que o amor vivido trouxe. A pessoa se entrega ao amor e depois sobra o quê? Para mim, ficou este o questionamento do livro, de certa forma respondido ao longo das páginas.
Lembrou-me outra autora que comentei aqui neste blog há pouco tempo, Débora Valim, que também, de certa forma, fez do seu livro um expurgo de mágoas e ressentimentos vividos. Cabe aí um questionamento interessante, se pensarmos que são formas de mostrar uma condição feminina diante do amor vivido e que não é realizado. Estaria a nossa sociedade "vendendo" uma ideia de amor que não corresponde à realidade? Existe mesmo este amor romântico, desejado e buscado, principalmente pelas mulheres? Ou estariam os homens enxergando a vida e o amor de uma maneira tão diferente que não estão vivendo no mesmo mundo que as mulheres? Questões para se pensar.
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Para quem se interessar em adquirir o livro, pode ir direto no link abaixo.
http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=105
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Programação do VI Festival da Mantiqueira
Segue a programação do VI Festival da Mantiqueira. Participarei no domingo, falando sobre o livro do Moacyr Pinto acompanhado dos excelentes André Freire, José Moraes e Paula Barja.
A programação abaixo foi retirada do Jornal "O VALE" de domingo.
terça-feira, 26 de março de 2013
Águas de Março
Em seu terceiro livro solo, Reginaldo Poeta Gomes trouxe até nós uma boa seleção de poemas que se mantém bastante fiel ao seu estilo. Acrescenta que fala mais de amor, continua com a inserção da água em muitos poemas e vem alguns toques sociais.
Na forma, distingue-se um pouco do livro anterior, agora, há mais poemas com muitos versos e poucos poemas curtos e diretos, está mais filosófico, mais pensador e mostrando-se mais, permitindo-se aos outros que o descubram como um homem simples e apaixonado pela vida.
Mas, apesar da maioria do livro ser assim, bastante lírico e romântico, percebemos que há uma certa angústia em tudo isso e uma percepção de desilusão na vida em:
Assim, somo convidados a descobrir este mundo ou o que está por trás dele, quando analisamos com mais calma a ideia de cada poema, vemos que o poeta, para variar, é este fingidor nato.
Ou seja, ao longo do livro, ele tenta fazer-nos acreditar que está somente contando coisas belas, mas há uma busca de si mesmo, que menino é esse que pula dentro de si mesmo senão o próprio poeta? E este pulo dentro de si que ele expõe fica mais claro nos poemas dedicados a um pai ausente na sua infância. Há desilusão e dor ainda que disfarçadas, fingidas e transformadas em beleza. E também há crítica mais séria e interessante em "Escombros", poema dedicado ao Pinheirinho, e também no poema:
Quando começamos a enxergar a violência e a ver a realidade corremos o risco de morrer não pela violência em si, mas pelo horror que a realidade nos traz, mas esta claridade também pode ser transformadora, pois o primeiro passo para mudar é enxergar o problema.
Outro aspecto interessante neste livro é a presença de poemas do cotidiano, onde se retratam cenas simples e cheias de poesia, temos aí alguns poemas bons em que destaco "Antena Prateada"; "Partilhando Segredos", "Doação" e "O asfalto não entende o lamentar dos chinelos". Também a presença da sua musa inspiradora é marcante, poderia o poeta até fazer um livro somente dos seus poemas de amor, belos poemas como "Fênix", "Desembrulhando Sono"; "O Vento trazendo notícias do mundo lá fora"; "Uma escada longa para suprir a curiosidade dos meus olhos". "CEP 58700-000".
E, como não podia deixar de ser, a presença da água em todo o percurso do livro, a água como fonte de vida, constante, perene, uma lembrança de sertão que não podia faltar no Réginaldo, sempre referindo-se a nuvens, arco-íris, chuva, pingos, choro.
Ainda assim, apesar deste livro possuir belos poemas, faltou-lhe mais uma vez a dimensão de obra mais completa, novamente o poeta colocou uma grande quantidade de poemas e temas sem preocupar-se com o conjunto da obra, muitos poemas poderiam ser deslocados para outro momento ou não precisavam talvez estar no livro pois retiraram a coesão como, por exemplo "Um encontro inusitado"; "Dentro" e "Irregular" e "Um olhar em cada canto". Também poderia concentrar um pouco mais os temas e ousar um pouco mais.
É isso, com certeza é uma ótima leitura deste poeta que vem construindo uma obra interessante e consistente.
Na forma, distingue-se um pouco do livro anterior, agora, há mais poemas com muitos versos e poucos poemas curtos e diretos, está mais filosófico, mais pensador e mostrando-se mais, permitindo-se aos outros que o descubram como um homem simples e apaixonado pela vida.
Mas, apesar da maioria do livro ser assim, bastante lírico e romântico, percebemos que há uma certa angústia em tudo isso e uma percepção de desilusão na vida em:
Lírica Manhã
Não vale a pena se iludir
Não existem milagres
Não existem milagres
A flor que conduz os sonhos
É a flor da tempestade.
Assim, somo convidados a descobrir este mundo ou o que está por trás dele, quando analisamos com mais calma a ideia de cada poema, vemos que o poeta, para variar, é este fingidor nato.
Lugar Estranho
O menino pulo num buraco
O buraco era muito profundo
De repente chegou noutro lado
Do lado do lado
De um estranho mundo.
Esse mundo era desabitado
Era um mundo diferente
Esse mundo só tinha uma porta
Que dava para dentro de dentro da gente.
Ou seja, ao longo do livro, ele tenta fazer-nos acreditar que está somente contando coisas belas, mas há uma busca de si mesmo, que menino é esse que pula dentro de si mesmo senão o próprio poeta? E este pulo dentro de si que ele expõe fica mais claro nos poemas dedicados a um pai ausente na sua infância. Há desilusão e dor ainda que disfarçadas, fingidas e transformadas em beleza. E também há crítica mais séria e interessante em "Escombros", poema dedicado ao Pinheirinho, e também no poema:
Conversa entre postes
Ontem foi terrível
1 estupro;
5 assaltos
E nenhum beijo de amor...
Quanto horror!
Esta claridade ainda vai nos matar!
Quando começamos a enxergar a violência e a ver a realidade corremos o risco de morrer não pela violência em si, mas pelo horror que a realidade nos traz, mas esta claridade também pode ser transformadora, pois o primeiro passo para mudar é enxergar o problema.
Outro aspecto interessante neste livro é a presença de poemas do cotidiano, onde se retratam cenas simples e cheias de poesia, temos aí alguns poemas bons em que destaco "Antena Prateada"; "Partilhando Segredos", "Doação" e "O asfalto não entende o lamentar dos chinelos". Também a presença da sua musa inspiradora é marcante, poderia o poeta até fazer um livro somente dos seus poemas de amor, belos poemas como "Fênix", "Desembrulhando Sono"; "O Vento trazendo notícias do mundo lá fora"; "Uma escada longa para suprir a curiosidade dos meus olhos". "CEP 58700-000".
E, como não podia deixar de ser, a presença da água em todo o percurso do livro, a água como fonte de vida, constante, perene, uma lembrança de sertão que não podia faltar no Réginaldo, sempre referindo-se a nuvens, arco-íris, chuva, pingos, choro.
Ainda assim, apesar deste livro possuir belos poemas, faltou-lhe mais uma vez a dimensão de obra mais completa, novamente o poeta colocou uma grande quantidade de poemas e temas sem preocupar-se com o conjunto da obra, muitos poemas poderiam ser deslocados para outro momento ou não precisavam talvez estar no livro pois retiraram a coesão como, por exemplo "Um encontro inusitado"; "Dentro" e "Irregular" e "Um olhar em cada canto". Também poderia concentrar um pouco mais os temas e ousar um pouco mais.
É isso, com certeza é uma ótima leitura deste poeta que vem construindo uma obra interessante e consistente.
domingo, 27 de janeiro de 2013
A escrita perigosa de Débora Vallim
"Cartas às Amigas" de Debora Vallim é um livro muito interessante, com escrita fluente e intimista, que me trouxe a alegria de ver a qualidade do texto deste pequeno livro. Não o defino como um livro de crônicas simplesmente pois, seu foco é a impossibilidade da existência, sendo esta tão cruel e nada confortável.
Ao expor as dificuldades de se encontrar a felicidade na sociedade, a autora mergulha na complexidade da vida, dos pensamentos e dos sentimentos, relacionando-os com a sociedade em que vive, incluindo aí a família, os amigos, os outros. Apesar de admitir que está quite com as suas ambições materiais e que tem uma estrutura familiar relativamente boa, não consegue encontrar a verdadeira felicidade neste ambiente.
Tudo o que ela escreve relaciona-se com a sua história, mas também é a história de uma sociedade que perdeu os vínculos sanguineos e comunitários, em detrimento dos vínculos profissionais e individuais. E muito disso eu já discuti aqui neste espaço e, como tal, a escrita de Débora Vallim relaciona-se com a percepção atual de que o ser humano perde algo muito precioso ao passar para a sociedade de consumo de massa e de competição individual pelo sucesso construído em cima do fracasso dos outros. Perde a socialização, a comunidade, a comunicabilidade.

Seus questionamentos são bons e talvez ainda não tenhamos as respostas como, por exemplo, porque em algum momento, as pessoas pararam de falar dos seus problemas, pararam de se mostrar fracas e com dificuldades, onde foi que passamos a ver a vida apenas como sucesso (profissional e financeiro), independente de como se o alcança?
E depois de alcançado o sucesso, o que resta? Uma das muitas passagens belas na forma de escrita e no questionamento deste livro está na Carta n. 1: "Cumpri o "protocolo da vida" como uma máquina indigna de erros. Nasci, cresci, estudei, casei, me reproduzi, trabalho, ainda. Tenho tudo. Acabei cedo, mas ainda falta muito tempo... e agora? Remete-nos ao "E agora, José?" de Drummond, alcançado o sucesso, gozado a vida, o que sobra?
Outro questionamento é sobre esta sociedade onde as pessoas não olham para dentro de si mesmas, e, quando olham, não se vêem como indivíduos completos e atuantes, mas como indivíduos fora de contexto, um grau abaixo dos outros (pois os outros sempre aparentam ter mais sucesso financeiro).
A questão deste embate entre ela e os outros parece ser o tema central, ela sempre se colocando como alguém que não está bem inserida no mundo, pois este mundo não a acolhe, não a completa, não a torna feliz. E os outros sempre estão a espreitar os defeitos e colocar o dedo nas feridas e aumentá-las se assim puderem.
A autora questiona o mundo enfadonho que construímos, podemos citar um trecho da carta n.º 3:
"Todos os anos os mesmos desejos, mesmas angústias e anseios, beijos, bebidas, excesso de comida e pratos exóticos...", e logo depois: "Hoje desejei só uma cama e hospital: lençóis limpos, silêncio externo que invade o corpo, medicamentos que aliviam a dor de estar vivo, dão trégua ao pensamento...".
E são estes e muitos outros questionamentos que tornam o livro interessante pois o situa numa faixa de literatura perigosa que leva o leitor à beira de um precipício, prestes a cair, deixando-o alerta. Só para citar alguns exemplos, temos na Carta n.º 11:
"Sinto-me farta da convivência, das perdas constantes, da falta de troca, da arrogância alheia, da soberba, da ausência de humildade, do sentimento humano de perenidade, dos humanos aristocratas, da pobreza que humilha, do alimento que não nutre, da grosseria diária, da frieza dos olhos, dos andróides que caminham ao nosso lado, da doença que infecta a mente...".
Ou então, podemos ler na Carta n.º 12:
"...grito e ninguém escuta, caio e não há quem estenda a mão. Esforço-me na limpeza e tudo permanece sujo, coloco perfume mas o odor da podridão impera. Cheiro de pus que invade as narinas quando me aproximo de alguém, cheiro de flores em putrefação, olhos sem visão - globo ocular vazio.".
Mas é preciso compreender que a autora não fala, na verdade de si. Ela usa o recurso de falar de si mesma para criticar duramente a sociedade atual, este recurso de trazer para a primeira pessoa esta crueza é para dizer que todos nós, como sociedade, passamos por esta dureza, estranheza e dificuldade. Lembra que não é a pessoa sozinha que está doente, mas a sociedade atual, ao abandonar tudo o que nos faz humanos em troca de algo que nos faz máquinas virtuais perfeitas.
Boa leitura, mas peço ao leitor que não leia este livro no alto de um edifício ou à beira da Dutra, pode dar vontade de se jogar.
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Editora Netebooks - Cartas às amigas
sábado, 15 de setembro de 2012
TECENDO O AMANHÃ
"Tecendo o Amanhã", de Moacyr Pinto é um romance diferente. O livro conta as mudanças sofridas por uma comunidade ao longo de 27 anos, de 1975 a 2002. Uma comunidade de um bairro de Santo André, palco de lutas operárias. Portanto, desde o período em que a ditadura militar ainda estava muito atuante no Brasil (só para lembrar, Wladimir Herzog foi assassinado em 1975), até o ano da eleição de Lula como o primeiro presidente proletário do país. Conta as situações desta comunidade, suas mudanças através do tempo e da atuação dos personagens.
Houve uma certa dificuldade minha de compreender este formato que o autor propôs para o romance, pois esta não é uma história individual, mas uma história coletiva que remete ao conhecimento de sociologia do autor. Assim, o autor não utilizou a visão individualista, não há um herói e nem um vilão, há fatos, análises, decisões e consequências (individuais ou coletivas) mas sem a fixação na atitude de um indivíduo. Há a coletividade e por isso pensei que pudesse até ser uma novela, pois há uma boa quantidade de personagens mas não chega a este formato, então, chamo-o de romance da coletividade.Interessante destacar que o autor não conta uma história épica de um ou de outro indivíduo, mas histórias comuns, com problemas comuns a qualquer família como questões amorosas, adaptação, filhos com problemas na escola, mulheres com dificuldade em local de trabalho, homens comuns enfrentando seus dilemas entre trabalhar e estar com a família. Não há herói, não há alguém com emoção, racionalidade e força sobre-humanos em que a comunidade se apóia. As pessoas apoiam-se umas nas outras, como é a comunidade de uma região.
Além do aspecto de ser um romance de um coletivo, há outro: o uso de diálogos sobrepondo-se à ação. Ficamos sabendo das coisas que acontecem com os personagens, na maior parte da história, através das conversas entre eles. Na medida em que se desenvolve o diálogo, o autor conta a história de cada um. Compreendo que não é um meio comum fazer isso e a opção deve ter sido para demonstrar o crescimento da conscientização e da ideia mais do que a ação. Quem espera um romance de ação não vai encontrar neste livro.
Esta forma de colocar o diálogo acima da ação pareceu-me, em muitos casos, como se estivesse assistindo uma peça de teatro, no primeiro capítulo comecei a ter esta sensação: três amigas discutindo sua vida dentro de uma sala. E vem a sequência, no segundo, marido e mulher discutindo sua relação; no terceiro, o casal que chega de longe e está conversando com a família na cozinha e por aí vai numa série de cenas teatrais que podem, a qualquer momento, ser até representadas por atores, pois já estão escritas, colocados os seus diálogos. A cada capítulo ou cena, parecia que eu via os personagens conversando, exaltando-se, chorando, discutindo.
Para situar o momento histórico em cada período colocado, em alguns momentos foi utilizado o recurso de fazer uma pequena resenha no início dos capítulos. Este didatismo trouxe um problema, se, de um lado, é importante situar-se historicamente para compreender a vida daqueles personagens, por outro, quem não viveu este momento histórico talvez não lhe dê importância ou compreenderá o texto de outra maneira, sem alcançar a proposta do autor de demonstrar e discutir o cerne das mudanças políticas do país como tendo sido feitas a partir da base em que as lideranças individuais não se sobrepunham ao coletivo, mas respeitavam as opiniões de todos, avançando no tempo, o autor começa a mostrar que, atualmente, vivemos o contrário, o individualismo em detrimento deste coletivo. Mesmo assim, sopra um pouco de esperança no final do livro.
Não é um livro no formato: "descrição do ambiente e do herói, fator de mudança, atuação do herói, ambiente modificado", típico dos romances atuais de sucesso porque não há um herói, há uma coletividade, não há um fator de mudança pois é colocada a vida em constante processo de mudança mas há o ambiente anterior e o ambiente modificado, eu diria que é: "descrição do ambiente, vida corrente dos personagens sem atuação espetacular de ninguém em especial, ambiente alterado".
Este formato é diferente, válido e precisa ser aprimorado.
O que me chamou a atenção em muitos personagens que autor nos traz é a racionalidade que se sobrepõe à emotividade mas isto deve ser uma opção do autor, chamou-me a atenção em especial dois momentos: o primeiro em que a personagem Filomena decide aproximar-se finalmente de Fernando, e o outro momento quando da morte do filho deste mesmo Fernando, tratada de maneira bastante acelerada. Outro autor talvez desse mais ênfase à parte emotiva. Talvez o recurso de utilizar o diálogo em detrimento da ação tenha dado esta percepção.
Penso que o livro tem muitas propostas como, por exemplo:
-a mudança política no país não se deu pela luta armada como se faz pensar, mas pela conscientização do operariado que se propôs a fazer a sua própria história;
-na história não há um herói que a faz mas um coletivo que transforma;
-a Igreja Católica deu uma guinada da luta política para a tradição religiosa;
- a dificuldade da classe política de compreender a ação cultural como ação transformadora.
- a dificuldade da classe política de compreender a ação cultural como ação transformadora.
Podemos encontrar muitas outras propostas no livro mas faltou uma discussão aprofundada sobre como transformamos a sociedade brasileira, de uma sociedade que pensava muito mais no coletivo para esta consumista e hedonista da atualidade. Esta discussão deve ficar para um próximo momento porque não era este o foco do livro, mas há algumas colocações neste sentido. Talvez o que tenha faltado seja uma percepção de qual é a visão do mundo do ponto de vista do autor, faltou esta ênfase em demonstrar a contradição desta sociedade através da colocação efetiva de um assunto mais forte que permeasse o livro e fizesse uma ligação entre a sociedade de 1975 e a de 2002. Senti falta deste fator transformador mas é possível que esta seja mesmo a proposta do autor: a transformação se dá pela ação individual em busca de um bem comum, cada um lutando pelas suas verdades mas pensando na comunidade.
Ainda assim, por tudo o que eu percebi no livro, sinto que o autor consegue propor ideias novas, é um livro que precisa ser lido e compreendido de outras formas ainda pois me fez pensar em muita coisa, não apenas da forma utilizada pelo autor, como também nas ideias que ele propõe nas entrelinhas da vida dos seus personagens e na visão que ele tem da sociedade brasileira.
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Tecendo o Amanhã - Moacyr Pinto
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domingo, 25 de março de 2012
O QUARTO VAZIO
Quando Pablo Gonzalez lançou o seu primeiro romance: "O Quarto Vazio", em 2007, eu ainda não o conhecia. Vim conhecê-lo no ano de 2010 e já no seu segundo livro "Aqui estão os Tigres" que comentei aqui neste blog. Agora, ao ler o primeiro livro, sinto necessidade de voltar a este autor, tanto porque sei que está próximo do seu terceiro livro, quanto porque a sua qualidade literária merece mais destaque.Primeiro, devo destacar os momentos de Álvaro na empresa, seu discurso contra o trabalho, a sua fuga para um lugar que ele chamou de Limbo, onde havia vários empregados perdidos, depois sua demissão, a existência do leão de chácara que caça os funcionários vadios ou que causam problemas na empresa.
Fica interessante como uma crítica ao sistema capitalista. Longe de ser contrário ao sistema, pois Pablo não se preocupa em apresentar uma alternativa, ele critica mais a transformação do homem em simples realizador de tarefas, ainda que intelectuais, mas que geram lucro e bem estar para alguém que não é o funcionário. Quando define um "limbo" para onde os funcionários são jogados, parece dizer que as pessoas de um modo geral são jogados neste limbo pelo sistema, passam a viver um momento de desimportância à empresa, apesar de continuarem a gerar o lucro com o trabalho, ao dizer que um leão de chácara o leva de volta ao seu local de trabalho, também coloca a opressão sentida pelo trabalhador e a atitude de Álvaro, a preguiça, acaba por ser um ato de revolta contra a empresa e contra o sistema capitalista.
Mas o livro não é somente sobre isso. Vale mais sobre a atitude da pessoa em relação ao mundo, em relação às outras pessoas, ao sistema, a si mesmo. Não deixa de ser uma espécie de iniciação a uma discussão importante que Pablo Gonzalez faz da sociedade: qual é o papel de alguém no mundo de hoje?
Álvaro, ao não resolver sua situação com a sua amada, seja por não saber como fazê-lo, seja por não sentir-se seguro, ou por deixar que as pessoas façam suas ações cotidianas sem impedi-las ou criticá-las, ao deixar que as coisas simplesmente aconteçam e por não interferir no mundo, acaba sendo um reflexo da impotência do indivíduo em relação ao sistema, e até de uma sociedade que muitas vezes deixa que as coisas aconteçam para depois fazer algo.
Ao final do livro, percebi que ele representa as engrenagens de um sistema em cada personagem, representam formas de dominação ou de sujeição, como exemplo, posso tomar o caso de Otílio e Evelina, ela, com a sua beleza domina Otílio, que tem uma força enorme, ao contar o episódio de Otílio carregando a geladeira e dizer ao final: "Mas, oh, o peso que esse homem carrega", ele acaba por dizer não o peso da geladeira, mas o peso interno de ser apaixonado por uma mulher que não corresponde a paixão dele, o peso de uma vida que só tem sentido por alguém que não lhe dá valor.
Outra curiosidade é utilizar muitos nomes clássicos: "Ártemis, Argos, Diana, o que representa mais do que a situação em que as personagens são apresentadas.
Acabei por compreender que há uma ligação entre este primeiro livro e o segundo pois, enquanto neste, Pablo discute esta sociedade com uma variedade maior de personagens, mostrando-nos como funciona este sistema, em seu segundo livro, traz à tona esta discussão através de um único personagem que sofre todas as consequências deste sistema, que também tem suas dificuldades de sentir-se importante dentro deste mundo.
Com isso, Pablo cria sua visão de mundo muito particular mas que tem profundidade e conhecimento, coloca-nos uma questão importante: qual é o papel do indivíduo neste sistema em que vivemos? O indivíduo é apenas trabalhador, gerador de lucro? É apenas consumidor, novamente, gerador de lucro? Só tem utilidade enquanto parte de um sistema em que há dominação? Qual é a utilidade de um indivíduo ou não devemos falar em utilidade quanto falamos de pessoas?
Questionamentos importantes no trabalho de Pablo Gonzalez, e é este o trabalho que o escritor tem de realizar: criar o seu mundo e questionar o mundo de todos com isso, ele está realizando muito bem isso e aguardo ansioso seu próximo livro.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
AUSÊNCIAS DE MAH LUPORINI
Em 2011, Mah Luporini lançou o seu segundo livro "Ausências" em que ela nos mostra quarenta poemas pequenos, cada um possuindo de um a quatro versos. Cada poema é uma pequena definição de um momento, de uma ideia, de uma atitude, de uma sensação ou de um sentimento. Então, ela dá um pequeno título e escreve alguns poucos versos relacionados ao título dado. Desta forma, ela vai descrevendo, através de sua poesia intimista, o mundo em que ela se encontra e aí é a sua grande qualidade e, ao mesmo tempo, o grande defeito.
Às vezes penso que ler um livro de poesia é um pouco o trabalho de um médico legista que acaba de encontrar o objeto com o qual trabalha e que vai tentar descobrir as causas daquele objeto ter chegado ali. Começo a ler e vou decifrando palavras e significados, muitas vezes, passa-me pela cabeça que a poesia não é para ser decifrada, entendida ou explicada. A poesia apenas é, apenas existe, existe mais para o poeta do que para o leitor de poesia, mas as palavras, o grande tema de Mah Luporini, pois o tempo todo dedica-se a duas coisas, a si mesma e à sua relação com as palavras, que vem desde a infância pois não podemos deixar de lado a presença dos pais poetas.
Dos quarenta poemas, vinte deles encontram-se na primeira pessoa do singular no tempo presente. Então, ela usa palavras como "escrevo, dissolvo, perco-me, encontro-me, sou, procuro, liberto-me, quero, caminho, contemplo, navego, habito, ceifo, estou, brinco, sobrevivo, bebo, toco" que, a meu ver, mostra o quanto a poeta é voltada para si mesma tentando encontrar o seu mundo ou se encontrar no seu mundo. E aproximadamente a metade dos poemas também falam sobre palavras, versos, escrever, poesia, muitas vezes, misturam-se os dois temas básicos: quem sou e porque escrevo.
Então, esta poesia super intimista, voltada somente a si e às suas vontades e desejos, expõe-se mas não interage com o mundo. Falta-lhe enxergar o mundo à sua volta, interagir, enfrentar, sair do seu casulo e sofrer por tentar em vez de sofrer por ficar presa ao seu mundo.
De certa forma, este entranhamento em si mesmo é uma marca da modernidade. Viver sem ver a realidade, ou ver a realidade e preferir viver o seu mundo próprio. As duas coisas se completam e são frequentes atualmente, não enxergar além do seu mundo.
Dentro da poesia de Mah Luporini encontro, entre os seus pequenos poemas, coisas muito boas como:
Ausência
Bebo o vinho da noite
Esqueço quem sou
Perco-me em
Ausências.
Gostei desta figura de "beber o vinho da noite", embriagar-se daquele momento silêncioso e se esquecer de tudo, perder-se em ausências, perder-se na falta de tudo, onde tudo e todos são ausentes. Então aí temos os temas muito explorados pela poeta como o silêncio (13 em 40 poemas remetem ao silêncio, à necessidade de não ter som ou de se calar), a si mesma e suas próprias ações (bebo, esqueço, perco, ) e às ausências na vida, das coisas, das pessoas, dos amores que tanto afligem o coração da poeta. Completando tudo em outros poemas como:
Insônia
Rendas silenciosas
Tecem a noite, outono de púrpuras,
Sob águas cristalinas.
Completa a ideia das coisas que estão acontecendo enquanto as pessoas estão dormindo, e também um outono, algo aguardando a primavera escondida nas águas cristalinas, talvez algo que irá surgir deste silêncio, desta noite, uma paixão (púrpura)?. E depois, da noite e do silêncio, depois desta espera pela primavera, encontramos:
Identidade?
Clara manhã
Tímido azul...
Sou alguém que não conheço
Então, apesar de eu ter visto o excesso de uma poesia intimista, de voltar-se para si mesmo, de acreditar que é necessário à poeta sair do casulo e expor-se para encontrar as oportunidades do mundo, penso, também que o livro tem a qualidade da coerência, da proposta de mostrar este eu poético, de apresentar este eu em silêncio, em horas noturnas, de distanciar este eu do mundo real e buscar a essência desta vida. Infelizmente, o ser humano, além de ser poético é ser social e, enquanto sobra a autora o "eu poético", falta-lhe, por enquanto, o ser social, a sua relação com o mundo real.
Às vezes penso que ler um livro de poesia é um pouco o trabalho de um médico legista que acaba de encontrar o objeto com o qual trabalha e que vai tentar descobrir as causas daquele objeto ter chegado ali. Começo a ler e vou decifrando palavras e significados, muitas vezes, passa-me pela cabeça que a poesia não é para ser decifrada, entendida ou explicada. A poesia apenas é, apenas existe, existe mais para o poeta do que para o leitor de poesia, mas as palavras, o grande tema de Mah Luporini, pois o tempo todo dedica-se a duas coisas, a si mesma e à sua relação com as palavras, que vem desde a infância pois não podemos deixar de lado a presença dos pais poetas.
Dos quarenta poemas, vinte deles encontram-se na primeira pessoa do singular no tempo presente. Então, ela usa palavras como "escrevo, dissolvo, perco-me, encontro-me, sou, procuro, liberto-me, quero, caminho, contemplo, navego, habito, ceifo, estou, brinco, sobrevivo, bebo, toco" que, a meu ver, mostra o quanto a poeta é voltada para si mesma tentando encontrar o seu mundo ou se encontrar no seu mundo. E aproximadamente a metade dos poemas também falam sobre palavras, versos, escrever, poesia, muitas vezes, misturam-se os dois temas básicos: quem sou e porque escrevo.
Então, esta poesia super intimista, voltada somente a si e às suas vontades e desejos, expõe-se mas não interage com o mundo. Falta-lhe enxergar o mundo à sua volta, interagir, enfrentar, sair do seu casulo e sofrer por tentar em vez de sofrer por ficar presa ao seu mundo.
De certa forma, este entranhamento em si mesmo é uma marca da modernidade. Viver sem ver a realidade, ou ver a realidade e preferir viver o seu mundo próprio. As duas coisas se completam e são frequentes atualmente, não enxergar além do seu mundo.
Dentro da poesia de Mah Luporini encontro, entre os seus pequenos poemas, coisas muito boas como:
Ausência
Bebo o vinho da noite
Esqueço quem sou
Perco-me em
Ausências.
Gostei desta figura de "beber o vinho da noite", embriagar-se daquele momento silêncioso e se esquecer de tudo, perder-se em ausências, perder-se na falta de tudo, onde tudo e todos são ausentes. Então aí temos os temas muito explorados pela poeta como o silêncio (13 em 40 poemas remetem ao silêncio, à necessidade de não ter som ou de se calar), a si mesma e suas próprias ações (bebo, esqueço, perco, ) e às ausências na vida, das coisas, das pessoas, dos amores que tanto afligem o coração da poeta. Completando tudo em outros poemas como:
Insônia
Rendas silenciosas
Tecem a noite, outono de púrpuras,
Sob águas cristalinas.
Completa a ideia das coisas que estão acontecendo enquanto as pessoas estão dormindo, e também um outono, algo aguardando a primavera escondida nas águas cristalinas, talvez algo que irá surgir deste silêncio, desta noite, uma paixão (púrpura)?. E depois, da noite e do silêncio, depois desta espera pela primavera, encontramos:
Identidade?
Clara manhã
Tímido azul...
Sou alguém que não conheço
Então, apesar de eu ter visto o excesso de uma poesia intimista, de voltar-se para si mesmo, de acreditar que é necessário à poeta sair do casulo e expor-se para encontrar as oportunidades do mundo, penso, também que o livro tem a qualidade da coerência, da proposta de mostrar este eu poético, de apresentar este eu em silêncio, em horas noturnas, de distanciar este eu do mundo real e buscar a essência desta vida. Infelizmente, o ser humano, além de ser poético é ser social e, enquanto sobra a autora o "eu poético", falta-lhe, por enquanto, o ser social, a sua relação com o mundo real.
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