sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Desmergulho de Daniela Peneluppi

           Em 2010, durante o Festival da Mantiqueira, Daniela Peneluppi lançou o seu primeiro livro de poemas chamado Desmergulho.
           Começo dizendo pelo que me chamou primeiro a atenção no livro: poemas feitos como se fossem letras de música. Neste contexto, temos os poemas "Alô da Terra Custa Caro", "Bolero Saudoso", "Desmergulho", "Ilhabela", "Só uma Palavra". Em geral, são poemas com certa métrica, com palavras colocadas bem corretamente dentro de uma melodia que se pode até imaginar.
           Outro aspecto foi o visual no interior do livro, Daniela usou de muitas imagens de paisagens, flores, fotos diversas, além de escrever ora em maiúscula, ora em minúscula, ora iniciando com letras minúsculas as palavras com o restante do corpo em maiúscula. Esta utilização acabou por trazer algumas reflexões que vão além da palavra, pois, ao se utilizar destes recursos, a artista causa estranheza na leitura do livro, não estamos acostumados a ler uma palavra iniciando com minúscula e com o resto do corpo em maiúscula como em:

ASTRAL

bANHO dE rIO
bANHO dE mAR
bANHO aO lUAR
aR
LOGO LEVE
LEVE CORPO
dAQUI
pARA uM oUTRO lUGAR.

           Mas não é esta estranheza visual que este uso das letras nos causa que me fez pensar sobre este recurso, pois, ao utilizá-lo, perdemos um pouco o senso da palavra escrita, se o recurso fizesse jus a uma forma inovadora e de vanguarda no que ela quer dizer, então, seria muito válido, mas isto não ocorre porque é um recurso visual inócuo. Melhor seria se usasse o recurso de misturar letras maiúsculas e minúsculas com o intuito de destacar determinadas letras que, dentro do poema, poderiam transformar-se em outro poema.
           A métrica e a sonoridade que servem nas canções não necessariamente servirão em um trabalho poética de vanguarda, porque o trabalho poético deve ser repleto do mundo atual, deve vincular a vida do poeta com o mundo de alguma forma muito particular e única, o que está faltando para Daniela neste trabalho.
             Ao voltar-se para si mesma, não enxergando o arredor, ela se mostra fechada em um mundo interior próprio, sinalizar que morou aqui ou ali não significa que tenha saído de seu mundo interior para atingir o mundo dos seus pares, um grande poeta escreveu que viajou por todos os lugares do mundo, mas o único lugar em que realmente se encontrou foi dentro dele mesmo. No entanto, este é um caminho para chegar ao mundo que nos cerca, conhecer-nos para depois ir ao encontro do outro.
            Nesta sua fase poética, Daniela está indo ao seu próprio encontro, esta visão, às vezes egoísta, incomodou-me muito porque ela não conseguiu atingir um olhar mais refinado do fazer poético. Tanto que um dos temas que chama a atenção é o uso do espelho, do reflexo, do ver a si mesma muitas vezes, já na abertura do livro no poema "A Espera", depois em "Cabelo-Iris", "Lá em Cima do Piano", "Refrangível".
            Entendo que a palavra pode ser colocada ao seu próprio serviço, mas só atinge um grau mais elevado de poesia quando se impregna do mundo, das pessoas à nossa volta, das nuances que percebemos nas dores nossas e dos outros, o poeta não pode viver só no seu próprio mundo, como se morasse em outro planeta, precisa descer à terra, caminhar no meio do povo, sentir o calor da humanidade. Falta isso, neste momento, à Daniela.
              Convém ressaltar que surgiram poemas interessantes como "Plenilúnio" em que ela consegue fazer esta junção da própria dor e das dores alheias, misturando o sentimento de saudade com figuras interessantes como a imagem do trem na lua cheia. "Olhar invertido no vidro"
          Há vários poemas repetindo o tema de "Mar", "Lua", "Estrela", "Céu", "Rio", "Vento". Ao selecionar as 9 palavras mais utilizadas nos poemas (Céu, Lua, Estrela, Sol, Mar, Rio, Chuva, Flor e Espelho), vemos que dos 51 poemas, 26 deles possuem alguma destas palavras, sendo que em pelo um poema, seis destas palavras estão presentes.
         Faltou à poeta pensar o livro como um todo, como uma obra única, sendo o primeiro livro, talvez tenha havido o desejo de publicar o máximo possível sem considerar o conjunto da obra e dos temas tratados, penso que ela deveria se focar mais no temas trabalhados nos poemas "Refrangível", "Plenilúnio", "Campos de Margarida", "Olhar invertido no vidro" que são os mais interessantes.