terça-feira, 26 de março de 2013

Águas de Março

      Em seu terceiro livro solo, Reginaldo Poeta Gomes trouxe até nós uma boa seleção de poemas que se mantém bastante fiel ao seu estilo. Acrescenta que fala mais de amor, continua com a inserção da água em muitos poemas e vem alguns toques sociais.
      Na forma, distingue-se um pouco do livro anterior, agora, há mais poemas com muitos versos e poucos poemas curtos e diretos, está mais filosófico, mais pensador e mostrando-se mais, permitindo-se aos outros que o descubram como um homem simples e apaixonado pela vida.
      Mas, apesar da maioria do livro ser assim, bastante lírico e romântico, percebemos que há uma certa angústia em tudo isso e uma percepção de desilusão na vida em:
 
                                     Lírica Manhã

                                         Não vale a pena se iludir
Não existem milagres
A flor que conduz os sonhos
É a flor da tempestade.

      Assim, somo convidados a descobrir este mundo ou o que está por trás dele, quando analisamos com mais calma a ideia de cada poema, vemos que o poeta, para variar, é este fingidor nato.

Lugar Estranho

O menino pulo num buraco
O buraco era muito profundo
De repente chegou noutro lado
Do lado do lado
De um estranho mundo.

Esse mundo era desabitado
Era um mundo diferente
Esse mundo só tinha uma porta
Que dava para dentro de dentro da gente.

      Ou seja, ao longo do livro, ele tenta fazer-nos acreditar que está somente contando coisas belas, mas há uma busca de si mesmo, que menino é esse que pula dentro de si mesmo senão o próprio poeta? E este pulo dentro de si que ele expõe fica mais claro nos poemas dedicados a um pai ausente na sua infância. Há  desilusão e dor ainda que disfarçadas, fingidas e transformadas em beleza. E também há crítica mais séria e interessante em "Escombros", poema dedicado ao Pinheirinho, e também no poema:

Conversa entre postes

Ontem foi terrível
1 estupro;
5 assaltos
E nenhum beijo de amor...

Quanto horror!
Esta claridade ainda vai nos matar!

     Quando começamos a enxergar a violência e a ver a realidade corremos o risco de morrer não pela violência em si, mas pelo horror que a realidade nos traz, mas esta claridade também pode ser transformadora, pois o primeiro passo para mudar é enxergar o problema.
      Outro aspecto interessante neste livro é a presença de poemas do cotidiano, onde se retratam cenas simples e cheias de poesia, temos aí alguns poemas bons em que destaco "Antena Prateada"; "Partilhando Segredos", "Doação" e "O asfalto não entende o lamentar dos chinelos". Também a presença da sua musa inspiradora é marcante, poderia o poeta até fazer um livro somente dos seus poemas de amor, belos poemas como "Fênix", "Desembrulhando Sono"; "O Vento trazendo notícias do mundo lá fora"; "Uma escada longa para suprir a curiosidade dos meus olhos". "CEP 58700-000".
      E, como não podia deixar de ser, a presença da água em todo o percurso do livro, a água como fonte de vida, constante, perene, uma lembrança de sertão que não podia faltar no Réginaldo, sempre referindo-se a nuvens, arco-íris, chuva, pingos, choro.
       Ainda assim, apesar deste livro possuir belos poemas, faltou-lhe mais uma vez a dimensão de obra mais completa, novamente o poeta colocou uma grande quantidade de poemas e temas sem preocupar-se com o conjunto da obra, muitos poemas poderiam ser deslocados para outro momento ou não precisavam talvez estar no livro pois retiraram a coesão como, por exemplo "Um encontro inusitado"; "Dentro" e "Irregular" e "Um olhar em cada canto".  Também poderia concentrar um pouco mais os temas e ousar um pouco mais.
      É isso, com certeza é uma ótima leitura deste poeta que vem construindo uma obra interessante e consistente.
      

domingo, 27 de janeiro de 2013

A escrita perigosa de Débora Vallim

     "Cartas às Amigas" de Debora Vallim é um livro muito interessante, com escrita fluente e intimista, que me trouxe a alegria de ver a qualidade do texto deste pequeno livro. Não o defino como um livro de crônicas simplesmente pois, seu foco é a impossibilidade da existência, sendo esta tão cruel e nada confortável.
      Ao expor as dificuldades de se encontrar a felicidade na sociedade, a autora mergulha na complexidade da vida, dos pensamentos e dos sentimentos, relacionando-os com a sociedade em que vive, incluindo aí a família, os amigos, os outros. Apesar de admitir que está quite com as suas ambições materiais e que tem uma estrutura familiar relativamente boa, não consegue encontrar a verdadeira felicidade neste ambiente.
     Tudo o que ela escreve relaciona-se com a sua história, mas também é a história de uma sociedade que perdeu os vínculos sanguineos e comunitários, em detrimento dos vínculos profissionais e individuais. E muito disso eu já discuti aqui neste espaço e, como tal, a escrita de Débora Vallim relaciona-se com a percepção atual de que o ser humano perde algo muito precioso ao passar para a sociedade de consumo de massa e de competição individual pelo sucesso construído em cima do fracasso dos outros. Perde a socialização, a comunidade, a comunicabilidade.

     Seus questionamentos são bons e talvez ainda não tenhamos as respostas como, por exemplo, porque em algum momento, as pessoas pararam de falar dos seus problemas, pararam de se mostrar fracas e com dificuldades, onde foi que passamos a ver a vida apenas como sucesso (profissional e financeiro), independente de como se o alcança?
     E depois de alcançado o sucesso, o que resta? Uma das muitas passagens belas na forma de escrita e no questionamento deste livro está na Carta n. 1: "Cumpri o "protocolo da vida" como uma máquina indigna de erros. Nasci, cresci, estudei, casei, me reproduzi, trabalho, ainda. Tenho tudo. Acabei cedo, mas ainda falta muito tempo... e agora? Remete-nos ao "E agora, José?" de Drummond, alcançado o sucesso, gozado a vida, o que sobra?
     Outro questionamento é sobre esta sociedade onde as pessoas não olham para dentro de si mesmas, e, quando olham, não se vêem como indivíduos completos e atuantes, mas como indivíduos fora de contexto, um grau abaixo dos outros (pois os outros sempre aparentam ter mais sucesso financeiro).
     A questão deste embate entre ela e os outros parece ser o tema central, ela sempre se colocando como alguém que não está bem inserida no mundo, pois este mundo não a acolhe, não a completa, não a torna feliz. E os outros sempre estão a espreitar os defeitos e colocar o dedo nas feridas e aumentá-las se assim puderem.
     A autora questiona o mundo enfadonho que construímos, podemos citar um trecho da carta n.º 3:
     "Todos os anos os mesmos desejos, mesmas angústias e anseios, beijos, bebidas, excesso de comida e pratos exóticos...", e logo depois: "Hoje desejei só uma cama e hospital: lençóis limpos, silêncio externo que invade o corpo, medicamentos que aliviam a dor de estar vivo, dão trégua ao pensamento...".
     E são estes e muitos outros questionamentos que tornam o livro interessante pois o situa numa faixa de literatura perigosa que leva o leitor à beira de um precipício, prestes a cair, deixando-o alerta. Só para citar alguns exemplos, temos na Carta n.º 11:
     "Sinto-me farta da convivência, das perdas constantes, da falta de troca, da arrogância alheia, da soberba, da ausência de humildade, do sentimento humano de perenidade, dos humanos aristocratas, da pobreza que humilha, do alimento que não nutre, da grosseria diária, da frieza dos olhos, dos andróides que caminham ao nosso lado, da doença que infecta a mente...".
     Ou então, podemos ler na Carta n.º 12:
     "...grito e ninguém escuta, caio e não há quem estenda a mão. Esforço-me na limpeza e tudo permanece sujo, coloco perfume mas o odor da podridão impera. Cheiro de pus que invade as narinas quando me aproximo de alguém, cheiro de flores em putrefação, olhos sem visão - globo ocular vazio.".
     Mas é preciso compreender que a autora não fala, na verdade de si. Ela usa o recurso de falar de si mesma para criticar duramente a sociedade atual, este recurso de trazer para a primeira pessoa esta crueza é para dizer que todos nós, como sociedade, passamos por esta dureza, estranheza e dificuldade. Lembra que não é a pessoa sozinha que está doente, mas a sociedade atual, ao abandonar tudo o que nos faz humanos em troca de algo que nos faz máquinas virtuais perfeitas.
     Boa leitura, mas peço ao leitor que não leia este livro no alto de um edifício ou à beira da Dutra, pode dar vontade de se jogar.

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Editora Netebooks - Cartas às amigas

sábado, 15 de setembro de 2012

TECENDO O AMANHÃ

                 "Tecendo o Amanhã", de Moacyr Pinto é um romance diferente. O livro conta as mudanças sofridas por uma comunidade ao longo de 27 anos, de 1975 a 2002. Uma comunidade de um bairro de Santo André, palco de lutas operárias. Portanto, desde o período em que a ditadura militar ainda estava muito atuante no Brasil (só para lembrar, Wladimir Herzog foi assassinado em 1975), até o ano da eleição de Lula como o primeiro presidente proletário do país. Conta as situações desta comunidade, suas mudanças através do tempo e da atuação dos personagens.
         Houve uma certa dificuldade minha de compreender este formato que o autor propôs para o romance, pois esta não é uma história individual, mas uma história coletiva que remete ao conhecimento de sociologia do autor. Assim,  o autor não utilizou a visão individualista, não há um herói e nem um vilão, há fatos, análises, decisões e consequências (individuais ou coletivas) mas sem a fixação na atitude de um indivíduo. Há a coletividade e por isso pensei que pudesse até ser uma novela, pois há uma boa quantidade de personagens mas não chega a este formato, então, chamo-o de romance da coletividade.
            Interessante destacar que o autor não conta uma história épica de um ou de outro indivíduo, mas histórias comuns, com problemas comuns a qualquer família como questões amorosas, adaptação, filhos com problemas na escola, mulheres com dificuldade em local de trabalho, homens comuns enfrentando seus dilemas entre trabalhar e estar com a família. Não há herói, não há alguém com emoção, racionalidade e força sobre-humanos  em que a comunidade se apóia. As pessoas apoiam-se umas nas outras, como é a comunidade de uma região.
          Além do aspecto de ser um romance de um coletivo, há outro: o uso de diálogos sobrepondo-se à ação. Ficamos sabendo das coisas que acontecem com os personagens, na maior parte da história, através das conversas entre eles. Na medida em que se desenvolve o diálogo, o autor conta a história de cada um. Compreendo que não é um meio comum fazer isso e a opção deve ter sido para demonstrar o crescimento da conscientização e da ideia mais do que a ação. Quem espera um romance de ação não vai encontrar neste livro.
          Esta forma de colocar o diálogo acima da ação pareceu-me, em muitos casos, como se estivesse assistindo uma peça de teatro, no primeiro capítulo comecei a ter esta sensação: três amigas discutindo sua vida dentro de uma sala. E vem a sequência, no segundo, marido e mulher discutindo sua relação; no terceiro, o casal que chega de longe e está conversando com a família na cozinha e por aí vai numa série de cenas teatrais que podem, a qualquer momento, ser até representadas por atores, pois já estão escritas, colocados os seus diálogos. A cada capítulo ou cena, parecia que eu via os personagens conversando, exaltando-se, chorando, discutindo.
         Para situar o momento histórico em cada período colocado, em alguns momentos foi utilizado o recurso de fazer uma pequena resenha no início dos capítulos. Este didatismo trouxe um problema, se, de um lado, é importante situar-se historicamente para compreender a vida daqueles personagens, por outro, quem não viveu este momento histórico talvez não lhe dê importância ou compreenderá o texto de outra maneira, sem alcançar a proposta do autor de demonstrar e discutir o cerne das mudanças políticas do país como tendo sido feitas a partir da base em que as lideranças individuais não se sobrepunham ao coletivo, mas respeitavam as opiniões de todos, avançando no tempo, o autor começa a mostrar que, atualmente, vivemos o contrário, o individualismo em detrimento deste coletivo. Mesmo assim, sopra um pouco de esperança no final do livro.
          Não é um livro no formato: "descrição do ambiente e do herói, fator de mudança, atuação do herói, ambiente modificado", típico dos romances atuais de sucesso porque não há um herói, há uma coletividade, não há um fator de mudança pois é colocada a vida em constante processo de mudança mas há o ambiente anterior e o ambiente modificado, eu diria que é: "descrição do ambiente, vida corrente dos personagens sem atuação espetacular de ninguém em especial, ambiente alterado".
          Este formato é diferente, válido e precisa ser aprimorado.
          O que me chamou a atenção em muitos personagens que autor nos traz é a racionalidade que se sobrepõe à emotividade mas isto deve ser uma opção do autor, chamou-me a atenção em especial dois momentos: o primeiro em que a personagem Filomena decide aproximar-se finalmente de Fernando, e o outro momento quando da morte do filho deste mesmo Fernando, tratada de maneira bastante acelerada. Outro autor talvez desse mais ênfase à parte emotiva. Talvez o recurso de utilizar o diálogo em detrimento da ação tenha dado esta percepção.
          Penso que o livro tem muitas propostas como, por exemplo:
         -a mudança política no país não se deu pela luta armada como se faz pensar, mas pela conscientização do operariado que se propôs a fazer a sua própria história;
          -na história não há um herói que a faz mas um coletivo que transforma;
          -a Igreja Católica deu uma guinada da luta política para a tradição religiosa;
          - a dificuldade da classe política de compreender a ação cultural como ação transformadora.
         Podemos encontrar muitas outras propostas no livro mas faltou uma discussão aprofundada sobre como transformamos a sociedade brasileira, de uma sociedade que pensava muito mais no coletivo para esta consumista e hedonista da atualidade. Esta discussão deve ficar para um próximo momento porque não era este o foco do livro, mas há algumas colocações neste sentido. Talvez o que tenha faltado seja uma percepção de qual é a visão do mundo do ponto de vista do autor, faltou esta ênfase em demonstrar a contradição desta sociedade através da colocação efetiva de um assunto mais forte que permeasse o livro e fizesse uma ligação entre a sociedade de 1975 e a de 2002. Senti falta deste fator transformador mas é possível que esta seja mesmo a proposta do autor: a transformação se dá pela ação individual em busca de um bem comum, cada um lutando pelas suas verdades mas pensando na comunidade.
         Ainda assim, por tudo o que eu percebi no livro, sinto que o autor consegue propor ideias novas, é um livro que precisa ser lido e compreendido de outras formas ainda pois me fez pensar em muita coisa, não apenas da forma utilizada pelo autor, como também nas ideias que ele propõe nas entrelinhas da vida dos seus personagens e na visão que ele tem da sociedade brasileira.

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Tecendo o Amanhã - Moacyr Pinto

domingo, 25 de março de 2012

O QUARTO VAZIO

    Quando  Pablo Gonzalez lançou o seu primeiro romance: "O Quarto Vazio", em 2007, eu ainda não o conhecia. Vim conhecê-lo no ano de 2010 e já no seu segundo livro "Aqui estão os Tigres" que comentei aqui neste blog. Agora, ao ler o primeiro livro, sinto necessidade de voltar a este autor, tanto porque sei que está próximo do seu terceiro livro, quanto porque a sua qualidade literária merece mais destaque.
     Neste livro, ele demonstra o seu talento literário diferenciado, ao qual devemos dar muita atenção. Consegue construir um história interessante, que não tem uma ação fantástica e nem se parece com um filme de aventura, ao contrário, busca mais a reflexão nos pequenos atos de cada personagem e, principalmente, do protagonista, Álvaro, que é demitido da empresa por ser preguiçoso demais e passa a viver um tempo de fundo de garantia e seguro desemprego. É sobre este tempo ocioso que o protagonista tem que o autor construiu a sua história.
     Primeiro, devo destacar os momentos de Álvaro na empresa, seu discurso contra o trabalho, a sua fuga para um lugar que ele chamou de Limbo, onde havia vários empregados perdidos, depois sua demissão, a existência do leão de chácara que caça os funcionários vadios ou que causam problemas na empresa.
     Fica interessante como uma crítica ao sistema capitalista. Longe de ser contrário ao sistema, pois Pablo não se preocupa em apresentar uma alternativa, ele critica mais a transformação do homem em simples realizador de tarefas, ainda que intelectuais, mas que geram lucro e bem estar para alguém que não é o funcionário. Quando define um "limbo" para onde os funcionários são jogados, parece dizer que as pessoas de um modo geral são jogados neste limbo pelo sistema, passam a viver um momento de desimportância à empresa, apesar de continuarem a gerar o lucro com o trabalho, ao dizer que um leão de chácara o leva de volta ao seu local de trabalho, também coloca a opressão sentida pelo trabalhador e a atitude de Álvaro, a preguiça, acaba por ser um ato de revolta contra a empresa e contra o sistema capitalista.
     Mas o livro não é somente sobre isso. Vale mais sobre a atitude da pessoa em relação ao mundo, em relação às outras pessoas, ao sistema, a si mesmo. Não deixa de ser uma espécie de iniciação a uma discussão importante que Pablo Gonzalez faz da sociedade: qual é o papel de alguém no mundo de hoje?
     Álvaro, ao não resolver sua situação com a sua amada, seja por não saber como fazê-lo, seja por não sentir-se seguro, ou por deixar que as pessoas façam suas ações cotidianas sem impedi-las ou criticá-las, ao deixar que as coisas simplesmente aconteçam e por não interferir no mundo, acaba sendo um reflexo da impotência do indivíduo em relação ao sistema, e até de uma sociedade que muitas vezes deixa que as coisas aconteçam para depois fazer algo.
     Ao final do livro, percebi que ele representa as engrenagens de um sistema em cada personagem, representam formas de dominação ou de sujeição, como exemplo, posso tomar o caso de Otílio e Evelina, ela, com a sua beleza domina Otílio, que tem uma força enorme, ao contar o episódio de Otílio carregando a geladeira e dizer ao final: "Mas, oh, o peso que esse homem carrega", ele acaba por dizer não o peso da geladeira, mas o peso interno de ser apaixonado por uma mulher que não corresponde a paixão dele, o peso de uma vida que só tem sentido por alguém que não lhe dá valor.
     Outra curiosidade é utilizar muitos nomes clássicos: "Ártemis, Argos, Diana, o que representa mais do que a situação em que as personagens são apresentadas.
     Acabei por compreender que há uma ligação entre este primeiro livro e o segundo pois, enquanto neste, Pablo discute esta sociedade com uma variedade maior de personagens, mostrando-nos como funciona este sistema, em seu segundo livro, traz à tona esta discussão através de um único personagem que sofre todas as consequências deste sistema, que também tem suas dificuldades de sentir-se importante dentro deste mundo.
     Com isso, Pablo cria sua visão de mundo muito particular mas que tem profundidade e conhecimento, coloca-nos uma questão importante: qual é o papel do indivíduo neste sistema em que vivemos? O indivíduo é apenas trabalhador, gerador de lucro? É apenas consumidor, novamente,  gerador de lucro? Só tem utilidade enquanto parte de um sistema em que há dominação? Qual é a utilidade de um indivíduo ou não devemos falar em utilidade quanto falamos de pessoas?
     Questionamentos importantes no trabalho de Pablo Gonzalez, e é este o trabalho que o escritor tem de realizar: criar o seu mundo e questionar o mundo de todos com isso, ele está realizando muito bem isso e aguardo ansioso seu próximo livro.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

AUSÊNCIAS DE MAH LUPORINI

      Em 2011, Mah Luporini lançou o seu segundo livro "Ausências" em que ela nos mostra quarenta poemas pequenos, cada um possuindo de um a quatro versos. Cada poema é uma pequena definição de um momento, de uma ideia, de uma atitude, de uma sensação ou de um sentimento. Então, ela dá um pequeno título e escreve alguns poucos versos relacionados ao título dado. Desta forma, ela vai descrevendo, através de sua poesia intimista, o mundo em que ela se encontra e aí é a sua grande qualidade e, ao mesmo tempo, o grande defeito.

      Às vezes penso que ler um livro de poesia é um pouco o trabalho de um médico legista que acaba de encontrar o objeto com o qual trabalha e que vai tentar descobrir as causas daquele objeto ter chegado ali. Começo a ler e vou decifrando palavras e significados, muitas vezes, passa-me pela cabeça que a poesia não é para ser decifrada, entendida ou explicada. A poesia apenas é, apenas existe, existe mais para o poeta do que para o leitor de poesia, mas as palavras, o grande tema de Mah Luporini, pois o tempo todo dedica-se a duas coisas, a si mesma e à sua relação com as palavras, que vem desde a infância pois não podemos deixar de lado a presença dos pais poetas.
      Dos quarenta poemas, vinte deles encontram-se na primeira pessoa do singular no tempo presente. Então, ela usa palavras como "escrevo, dissolvo, perco-me, encontro-me, sou, procuro, liberto-me, quero, caminho, contemplo, navego, habito, ceifo, estou, brinco, sobrevivo, bebo, toco" que, a meu ver, mostra o quanto a poeta é voltada para si mesma tentando encontrar o seu mundo ou se encontrar no seu mundo. E aproximadamente a metade dos poemas também falam sobre palavras, versos, escrever, poesia, muitas vezes, misturam-se os dois temas básicos: quem sou e porque escrevo.
      Então, esta poesia super intimista, voltada somente a si e às suas vontades e desejos, expõe-se mas não interage com o mundo. Falta-lhe enxergar o mundo à sua volta, interagir, enfrentar, sair do seu casulo e sofrer por tentar em vez de sofrer por ficar presa ao seu mundo.
      De certa forma, este entranhamento em si mesmo é uma marca da modernidade. Viver sem ver a realidade, ou ver a realidade e preferir viver o seu mundo próprio. As duas coisas se completam e são frequentes atualmente, não enxergar além do seu mundo.
      Dentro da poesia de Mah Luporini encontro, entre os seus pequenos poemas, coisas muito boas como:
  
          Ausência
     Bebo o vinho da noite
     Esqueço quem sou
     Perco-me em
     Ausências.

      Gostei desta figura de "beber o vinho da noite", embriagar-se daquele momento silêncioso e se esquecer de tudo, perder-se em ausências, perder-se na falta de tudo, onde tudo e todos são ausentes. Então aí temos os temas muito explorados pela poeta como o silêncio (13 em 40 poemas remetem ao silêncio, à necessidade de não ter som ou de se calar), a si mesma e suas próprias ações (bebo, esqueço, perco, ) e às ausências na vida, das coisas, das pessoas, dos amores que tanto afligem o coração da poeta. Completando tudo em outros poemas como:

       Insônia
     Rendas silenciosas
     Tecem a noite, outono de púrpuras,
     Sob águas cristalinas.

      Completa a ideia das coisas que estão acontecendo enquanto as pessoas estão dormindo, e também um outono, algo aguardando a primavera escondida nas águas cristalinas, talvez algo que irá surgir deste silêncio, desta noite, uma paixão (púrpura)?. E depois, da noite e do silêncio, depois desta espera pela primavera, encontramos:

        Identidade?
     Clara manhã
     Tímido azul...
     Sou alguém que não conheço

     Então, apesar de eu ter visto o excesso de uma poesia intimista, de voltar-se para si mesmo, de acreditar que é necessário à poeta sair do casulo e expor-se para encontrar as oportunidades do mundo, penso, também que o livro tem a qualidade da coerência, da proposta de mostrar este eu poético, de apresentar este eu em silêncio, em horas noturnas, de distanciar este eu do mundo real e buscar a essência desta vida. Infelizmente, o ser humano, além de ser poético é ser social e, enquanto sobra a autora o "eu poético", falta-lhe, por enquanto, o ser social, a sua relação com o mundo real.

sábado, 29 de outubro de 2011

O CIENTISTA E A POETA

                Mírian Menezes de Oliveira lançou recentemente o livro "O  Cientista e a Poeta", cujo exemplar impresso trouxe novidades no formato e manteve formas poéticas conhecidas. Explico: o livro foi impresso de forma a ser lido na horizontal das páginas e não na vertical igual a todo livro. Além disso, foi escrito em letra cursiva e vem recheado de desenhos curiosos.
          Segundo a autora o livro nasceu após um estudo sobre transdiciplinaridade que a entusiasmou. Ela já possuía uma alma de poeta e ao mesmo tempo de cientista, daí o título. Voltando ao assunto, após estes estudos, ela colocou-se a escrever porque os assuntos vinham e precisavam transferir-se ao papel.
          Sendo esta a primeira experiência poética, acredito que a Mirian antecipou-se demais ao tempo do poeta, pois a poesia exige um cuidado diferente. Transcrever os sentimentos é somente a primeira parte do trabalho poético, isto ela fez bem. Há tantas outras coisas envolvidas num trabalho de poesia além da simples transcrição dos sentimentos, sensações e observações sobre o mundo.
          O livro vale por esta explosão de sentimentos e pela necessidade de expressão que todos temos. Infelizmente, ainda está longe de um trabalho poético verdadeiro, que deve levar em conta algo mais.
          Assim temos poemas longos, com frases compridas, discutindo temas, expondo as ideias da autora como logo no início do livro com "Teorema Poético-Científico" em que lemos:
"a partir de agora, o cientista e a poeta
 (poetisa é muito açucarado) se
 fundirão no caldeirão da existência".
        Vemos que a forma colocada para os versos é uma afirmação, faltando-lhe os elementos poéticos como as figuras de linguagem, metáforas, dissimulações, ausências, dubiedade de significados. Outro exemplo está em "Poema da Relatividade" em que ela escreve:
A grama vista da janela
Quando bate o vento,
 não é grama...
 É mar!
         Ou seja, ela já conta tudo, tira o sabor da imaginação, dos diversos rumos e significados que uma palavra atinge. Faz uma poesia com poucas figuras de linguagem, poucas variações e sem uma dor. Uma poesia bastante contemplativa. Apesar disso, consegue ao longo livro, iniciar-se numa crítica social percebendo a redução do homem a objetos e coisas produzida pelo sistema econômico-social vigente.
        Acredito que ela deve aprimorar-se ao longo dos anos ao pensar o trabalho poético com muito mais variáveis. O trabalho poético na sua essência é a expressão do sentimento do ser humano em relação ao meio em que ele vive, sendo assim, a poesia deve considerar os sentimentos mais vitais em primeiro lugar, depois, o meio da vivência do poeta, em seguida, as contradições, figuras de linguagem, crítica, e sem esquecer que é necessário ver, ler, analisar o trabalho que os pares poéticos fazem para poder compreender o momento artistíco atual.
        Sendo assim, apesar de eu não gostar de repetições para marcar definições num poema, fico com o seguinte poema, como um dos mais significativos:

                           HOMEM-RÓTULO OU LOGO-HOMEM

                           Homem-rótulo
                           Homem-síntese
                           Homem-marca
                           Logo-homem

                           Homem predestinado
                           Homem etiquetado
                           Homem resumido
                           Logo-homem
                           com tarja preta
                           ou vermelha.

        O mais interessante é pensar que este poema ficaria muito mais forte se fosse menor, numa livre adaptação e sem querer modificar o estilo poético, a autora poderia cortar o poema, aproveitar apenas a essência das palavras e escrever:

        Logo-homem
        Homem-rótulo
        Com tarja preta
        Ou vermelha.

        Pois assim já diria tudo o que ela queria, a transformação das pessoas em coisas com muitos rótulos, marcas, logotipos, ao mesmo tempo que não percebem o perigo deste vício, em que faz alusão às tarjas pretas e vermelhas das embalagens de remédios que podem viciar. Em poucas palavras vem muita coisa à mente, deixando o leitor interpretar à sua maneira, dentro da sua experiência.
         Espero mais de Mírian Menezes e acredito que ela tem este potencial. Aguardaremos.
 

sábado, 22 de outubro de 2011

PREFÁCIO DE POEMAS DO SUBSOLO

       Em 20 de Outubro de 2011, José Moraes lançou sem livro mais recente "POEMAS DO SUBSOLO", prefaciado por Fernando Scarpel. Segue o prefácio do livro.

             POEMAS DO SUBSOLO dá continuidade ao excelente trabalho que o poeta Moraes desenvolve desde FRAGMENTOS URBANOS, seguido de POEMAS RAREFEITOS, mas, para compreendermos e entendermos a complexidade deste trabalho temos de colocar em mente a dimensão do ser humano diante de uma cidade devoradora de costumes, tradições, sentimentos, meio ambiente. Precisamos considerar a relação da cidade de São José dos Campos com o homem José Moraes Barbosa que enxerga como o excesso do concreto sobre o ser humano, o concreto que esmaga e destrói mais do que constrói coisas belas (lembrando até Caetano Veloso). Esta é a poesia por trás dos poemas de Moraes. Ele vê a cidade se transformando e esmagando seus habitantes, destruindo a alma humana; como exemplo temos

O CONCRETO É RETO
CURVO ÁRIDO ERETO
INQUIETO AQUIETA

Vemos que, além de falar da característica física e visual do Concreto (Reto, árido, ereto), também lhe dá dimensão de falta de sentimento (árido) e indiferença (ereto), apesar disso, mostra que não para (inquieto), mas, quando diz inquieto, ao mesmo tempo, quer dizer que ele representa a sociedade que insiste em erguê-lo, em continuar transformando a cidade em concreto e, quando diz aquieta, não quer dizer que ele para, mas que ele sufoca o ser humano dentro dele, aquieta o ser humano, aquieta o homem que, ao habitá-lo obriga-se a aceitá-lo.

Em "Interstício", outro excelente poema deste livro, enxergamos outra relação importantíssima do trabalho deste poeta que é a visualização do seu poema, a poesia do concreto visualizada num poema concreto, vem-me à mente a imagem do bairro joseense Jardim Aquarius quando estamos observando-o do alto da Vila Betânia, mais exatamente quando o visualizamos vindo de carro pelo Anel Viário, sentido centro-bairro e vemos aquele amontoado de prédios, com suas janelas surgindo como se fossem uma cadeia de montanhas, mas é acúmulo de concreto, lindamente traduzido neste poema, tanto na sua forma visual quanto na sua forma textual.

Esta relação entranhada do homem com a cidade, do homem com  o mundo é a poesia concreta de Moraes, que denuncia as prostitutas de rua, os menores abandonados, os relacionamentos efêmeros criados no mundo moderno e suas novas tecnologias que, a pretexto de libertar, prendem ainda mais o ser humano dentro de um ambiente virtual e irreal.

Mas este aspecto não é o único que devemos destacar na poesia de José Moraes, há de se notar a sua relação com a palavra como modificadora de pensamento, a palavra em seus aspectos visuais, na letra original deste poeta podemos perceber mais claramente o aspecto visual. Fora que as quebras que ele propõe também fazem parte de sua poesia, uma parte da palavra em uma linha, outra na linha de baixo, obriga-nos a ler o poema de maneiras diferentes, como uma frase única, como frases diversas, com cada palavra separadamente com seu significado que, juntas, tem outro. O que me remete a uma pequena diferença deste livro para os anteriores, neste ele volta a utilizar mais verbos em sua poesia, a dar mais ação, o que me traz o seguinte aspecto desta, se assim podemos dizer, trilogia poética que se forma entre "Fragmentos Urbanos", "Poemas Rarefeitos" e "Poemas do Subsolo".

Em "Fragmentos Urbanos" vemos o poeta tentando compreender a cidade onde existe, juntando suas faces e personagens, em "Poemas Rarefeitos", o poeta, abusando de não usar verbos, parece apenas refletir sobre o ambiente, parece em estado de transe, sem saída, sem ação, apesar de que a verdade é o estado de reflexão sobre o mundo. Agora, em "Poemas do Subsolo", traz tudo isso à tona, mais verbos, mais ação, extrai deste subsolo urbano a sua contestação e expõe aos habitantes da urbe e insiste em fazer poesia, em construir o seu mundo em cima deste mundo de concreto.

domingo, 31 de julho de 2011

SELF - PROFESSOR WILSON

      O professor Wilson Roberto, membro da Academia Joseense de Letras, lançou o livro "Self" por ocasião do Festival da Mantiqueira deste ano. É um livro de poesia clássico, não quero dizer pertencente ao classicismo mas clássico no sentido do que o pensamento médio entende de um poeta e poesia: para a grande maioria das pessoas, o poeta é aquele indivíduo usa muito o lirismo, o eu lírico, e que escreve difícil, usa versos muitas vezes rebuscados (como o Wilson mesmo diz em que "uso sinéreses, diéreses, hiatos e elisões numa forma que pode ser criticada por alguns metrificadores mais arraigados à tradição, nos quais, por vezes, procurei impor a cadência que desejei e, por outras, fui conservador..."). Neste livro, Wilson foi conservador o tempo todo pois não ousou no formato e nos temas, ateve-se a um formato ora moderno, ora romântico, ora clássico, em suas sinéreses (transformação de um hiato em ditongo), diéreses (o contrário, o ditongo vira hiato), suas elisões (elidir é suprimir, retirar letras de uma palavra).
      Ele foi romântico em excesso ao longo do livro ao tratar da Morte, tema preferido dos românticos do século dezenove, começa no primeiro poema e vem ao longo de todo o livro, a primeira estrofe do primeiro poema é um resumo do livro, ao ler:
      "Inconteste fim de minha carne que,
       de inevitável, te tornaste esperada.
       Cessar aterrorizante das sensações,
       serás por mim esquecida
       no momento de teu toque."
       é rebuscado, romântico e clássico, muitas vezes até parnasiano, só não é 100% tudo isso porque os seus versos têm métricas variadas e assim vai ao longo do livro. Não posso negar, dentro deste raciocínio, que o livro é muito bem escrito mas achei que houve, em alguns momentos, uma ou outra deslizada, por exemplo em um verso de "Sonetos de Bagdá" em que escreve no segundo soneto:
      "se batalho do modo certo ou do errado;
      se tornei-me herói, mártir ou simples tarado."
      ainda que a expressão tenha sentido no poema, é estranho lê-la, ou no terceiro soneto, uma interessante e rebuscada figura de dar inveja:
      "mas os ígneos plúmbeos pirilampos ateus"
     compreendo que ele se referia às balas de um revólver no poema, é bonito, mas é rebuscado demais.
     Então, ao longo do livro, vamos lendo uma constante luta interior entre a Vida e a Morte, a Ciência e a Religião, a Dor e a Saudade, onde não consegui entender se ele é contra ou a favor da fé, se quer a morte ou se quer a vida, se está feliz ou triste, sempre nesta falta de definição, como se fosse um luta interna.
      Outro tema que me chamou a atenção é a palavra "puta", bastante utilizada pelo poeta ao longo do livro, não sei se era necessário tanto uso do palavrão, e notei que poucas vezes ele falou das mulheres de outra maneira nos seus poemas, procurei algum que enaltecesse a mulher de outra forma e não encontrei, falha do poeta nestes tempos politicamente corretos ou vontade de ir contra estes tempos? Não sei. A entender ainda este aspecto.
      Talvez com o fim de mostrar seu conhecimento literário, inegavelmente vasto e diverso, Wilson colocou muitos poemas no livro como as livres adaptações do poema "O Corvo" de Edgar Alan Poe e outro poema de Luis de Góngora y Archote de 1602, além de uma curiosa "Canção do Martírio" parodiando a Canção do Exílio, como a querer mostrar todas as suas qualidades poéticas, deste jeito o livro, como um todo, deixou a desejar por não ter um foco. O foco foi a quantidade e não a seleção, no geral, evitou a experimentação, escrevendo versos com pouca inovação na forma e no uso da palavra, mesmo em alguns momentos em que ousou um pouco mais, não conseguiu atingir um poema que debatesse com vigor o mundo atual, a relação do homem com o consumismo, com a violência, ou que leve a uma reflexão maior do mundo urbano em que vivemos.
            Apesar da quantidade de poemas, faltaram emoções mais fortes, debate, discussão, tomar partido de algo com profundeza. Ficou mais no debate sobre a morte e a religião. O que não deixa de ser um reflexo, neste ponto, da sociedade moderna em que a religião ganha cada vez mais força, não que Wilson tome partido da religião, mas coloca este debate quando se confronta com a Morte, afinal, é do confronto com a morte tão inexplicável quanto certa que a religião tenta dar sentido à vida humana.
         Os poemas com linguajar caipira podem ser considerados valeparaibanos, mas acho que seria caricaturizar o caipira valeparaibano. Apesar de que em "Soneto Caipira" (o uso do soneto, forma clássica) ele lembra da tristeza do caipira com as mazelas do progresso industrial, carrega uma das características do Arcadismo, em que o homem devia fugir da urbanidade e se voltar ao agrário e pastoril. Acredito que o Vale do Paraíba é uma região complexa e que a figura do "caipira", quase extinta, não representa o atual momento da região, muito urbanizada, industrial e violenta.
      Em "Civitano de La Mondo", Wilson resolve fazer a demonstração de que o cidadão de São José dos Campos é um cidadão do mundo, ficou interessante mas sinto ausência de algo mais forte no poema.
      Ficou a sensação de que li uma aula de história da poesia, em que passeei por diversas escolas literárias, mas o poeta ficou devendo o experimentalismo e a inovação no fazer poético.
      Houve esta experimentação nos Nanocontos mas, ainda neste campo (talvez minhas observações estejam influenciadas pelo que li da poesia), o poeta precisaria ler os autores de vanguarda nesta área, aliás, poderia ler seu xará, Wilson Gorj, autor que já comentei neste blog, que faz o microconto com maestria.
      Resumindo, o uso de formas mais clássicas, do lirismo, da preocupação com vida e morte, transformaram o livro em poético mas não ousado ou experimental, não foi um livro inovador do fazer poético. faltou esta ousadia.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

NO RELÓGIO DA COLINA

     No Relógio da Colina é um livro bem escrito, uma história articulada sem dar grandes sustos no leitor, em que o autor ainda reserva uma grande surpresa no último capítulo com a intenção de fechar a história com chave de ouro. Para mim, soou como um romance turístico, ou um policial incompleto.
     Tem todos os ingredientes perfeitos para um romance adolescente, há o bom moço, ou príncipe encantado, aquele cara capaz de resolver problemas fantásticos, sobe rapidamente na vida.
     Há a mocinha linda, branca, cabelos pretos e olhos claros, maravilhosa que, no momento em que o mocinho a conhece ele sabe que é a paixão da vida dele, é amor à primeira vista. É recíproco para ela.
     Aí passamos para o romance turístico, o autor descreve os dois passando bons momentos juntos em Graz e Viena.

    Depois, vem a parte mais misteriosa, em pouco tempo, questão de horas, o mocinho descobre toda a trama, passa de uma desconfiança para a certeza e a explicação do mistério num clique, como se tudo fosse muito fácil de se conseguir, bastam alguns telefonemas, umas consultas pela internet e pronto, o mistério foi resolvido. E ele é capaz de acusar com todas as provas um dos mais importantes diretores da empresa multinacional.
     Fora isso, algumas partes soam muito inverossíveis como o momento em que o amigo advogado consegue a foto necessária para provar a sabotagem em um carro. O mocinho liga às 18:30 de sexta-feira para o Brasil, com quatro horas a menos, então, às 14:30 no Brasil, para o advogado descobrir onde está o carro acidentado e se ele foi sabotado. E o advogado, que não tem nada para fazer, lógico, não trabalha, estava lá só para isso, em São Paulo, sexta-feira à tarde, não tem trânsito e nem gente mal humorada, aí ele descobre o processo, o fórum, o laudo, o carro e consegue tirar fotos da sabotagem até sábado, seis horas da manhã. É demais. Outra parte é o momento em que a mocinha consegue, com alguns telefonemas, os relatórios de despesas de dois anos da multinacional toda em apenas algumas horas, consegue analisar e descobrir o culpado de pagamentos fantasmas! É uma dupla dinâmica, se os dois trabalhassem para a polícia federal, acabavam com os crimes no Brasil em seis meses.
      Os personagens principais são tão certinhos e tudo acontece tão bem que eu fico pensando como é que tem gente com ideia de fazer maldade neste mundo, porque vai se dar mal. O mocinho não tem nenhum conflito de consciência, apenas a certeza de que ele deve fazer tudo daquele jeito, que é o jeito certo, claro.
      Apesar destes detalhes, o livro funciona muito bem como uma aventura adolescente, um romance rápido para se ler sem entrar em temas duros e cruéis, há um vilão escondido o tempo todo que se revela só no final, em que o mocinho não precisa explicar nada para a polícia, tudo está ali fácil e entendido.
       Então o livro fica só como aventura mesmo. Não é uma literatura profunda e nem reflexiva sobre o mundo industrial e capitalista. É só aventura. Acredito até que esta foi a proposta mesmo do autor, escrever um livro de aventura, apenas isso.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A Minhoca ou o Chocolate? Que o galo decida.

     Como eu já afirmei aqui antes, eu sou apenas um leitor interessado em poesia, querendo compreender e registrar de alguma maneira este momento poético porque passa nosso Vale do Paraíba e demorou um pouco para eu entender o livro "Minhoca de Chocolate" do músico e poeta Léo Mandi. Foi uma leitura difícil porque seu estilo causou-me estranheza, a começar do título: "Minhoca de Chocolate". Confesso que as expressões utilizadas pelo autor são incomuns, muitas vezes beirando visões oníricas, lembrando-me de poetas que fizeram uso substâncias químicas para obter resultados novos e diferentes na poesia, acredito que não é este o caso deste autor, mas sua escrita foi incômoda. Não é fácil entender poemas como:

    "Berro Mergulho"

O vê de luz nas mãos
As borboletas laranjas astrais
As pedras
Magnéticas do poder do chão
A dupla de urubus nas rádios das matas
O berro mergulho na água de húmus
Somos seres Sol Vagens


     Aos poucos, fui compreendendo que Léo Mandi não escreve somente e exatamente um poema, porque poesia exige significados diferentes, várias interpretações para a mesma palavra dentro do poema e o uso de
 figuras de linguagem. A linguagem de Léo Mandi é feita como se fosse uma prosa, uma crônica que, apesar de estar elaborada na página em forma de versos, nem sempre deve ser lido como poesia. Muitas vezes é uma crônica poética, uma prosa poética, como, por exemplo:

      "Churrasco de Carrasco"

O isqueiro
substituiu o palito de fósforo
é um empresário fora de forma
na minha mão
Precisa ter a cabeça
rodada para trás
para cuspir o fogo
O calo do meu dedo
roça com força
a cabeça do empresário
o empresário havia
contratado um homem forte
que era uma árvore brutal
e produzia peças raras
Até que o homem contratado
se tornou um palito de fósforo
E, o empresário o queimou
Eu peguei o empresário
emprestado
para comprar alcool
e acender meu carvão

     Para mim, o poema acima é uma prosa, uma crônica, que ficaria melhor se fosse escrita como tal, e ficaria:

      "O isqueiro substituiu o palito de fósforo, é um empresário fora de forma na minha mão. Precisa ter a cabeça rodada para trás para cuspir o fogo. O calo do meu dedo roça com força a cabeça do empresário.
      O empresário havia contratado um homem forte que era uma árvore brutal e produzia peças raras. Até que o homem contratado se tornou um palito de fósforo e o empresário o queimou. Eu peguei o empresário emprestado para comprar alcool e acender meu carvão".

    Aí vemos outra característica que é a de simplesmente relacionar um objeto com uma história, neste caso foi o isqueiro, mas ele fez o mesmo com folha de papel, árvore, porta, dobradiça e outros.

     Podemos ver também muita referência a elementos da natureza e ao sexo em seus poemas, levando-nos a um ambiente mais primitivo, contrapondo-se ao ambiente urbano, conflitando com a metrópole. No geral, não pude entendê-lo como um livro de poesia, é um livro poético, mas não é de poesia em sua totalidade. Isso não quer dizer que não haja poesia, em alguns momentos, temos bons poemas:

"Não arraste"

Não quero seu resto
Atropelando meu rastro
De cometa
Você não é a única coisa
Que me resta.

ou o

Pai
Pai
Pai
Pai
Pai
Sagem

     Em que parece que ele está batendo (Pá, pá, pá) na cabeça do pai para ver se o pai tira a cara de paisagem que faz para o filho, um poema interessante e bom que se aproxima da poesia concreta que o poeta Moraes faz, sem verbos mas com ação visível.
ou ainda:

Poros Pulsa

Sou o pulso
Que perfura
Não o poço
Perfurado

     Este poema acima é a intenção do poeta de perfurar com a palavra e com o fazer artístico as noções pré concebidas que temos de poesia e poema, pois ele escreve mesmo de forma diferente, mas, apesar da estranheza que algumas frases me causaram, como por exemplo, nos poemas

      "Escrever"
      "Escrever com a pata/ do cão/ com o pelo do rabo/ Escrever sem saber o/ que é tinta/ Escrever sem pensar/ Igual a pele grudada / na pinta"

ou

      "Mijo Santo"
      "A água que cai da torneira/ e enche minha caneca/ Clara de alumínio/ é um mijo santo/ Vou passar o café/ daqui a pouco/ o mijo santo/ vai virar/ mijo preto/ com a minha/ fé",

o que me ficou mais marcado é a falta de preocupação com os versos, pois ele colocou todos os tipos e tamanhos de versos que quis, a falta de unidade do livro que tem uma temática diversa, a preocupação de causar estanheza, parecendo-me que foi mesmo proposital usar esta linguagem ("mijo santo", "mijo preto","a vagina é um barco", "pelo do rabo", "miolo de pau ardendo, torradeiras de bunda de inseto", "berro mergulho"). Tudo isso é um jeito que não estou acostumado a ler.
     No entanto, acredito que a manifestação deste livro é bastante interessante do ponto de vista do diferente. O formato dos versos, a falta de coesão e a temática fazem parte de uma visão da sociedade muito particular do autor, a mim é estranho mas, ao mesmo tempo, é fascinante tentar enxergar o que ele quer dizer, parece um quebra-cabeça, pode ser que ele queira mesmo dizer coisas que eu ainda não absorvi, pode ser que ele não queira dizer coisa com coisa, e que tudo seja proposital, ou não.
     Talvez Léo Mandi devesse ter, além desta preocupação de escrever diferente, também de trabalhar cada poema, retirando os excessos e as repetições de palavras de dentro do mesmo poema, como no exemplo acima, "Churrasco de Carrasco" em que usa a palavra "empresário" repetidas vezes. Isto aconteceu em outros poemas e poderia ser um objeto de mais dedicação do autor evitar esta repetição.
     O fato maior é que este livro incomoda, causa estranheza e nos tira das  palavras fáceis do nosso dia, causou-me desconforto.
      Mas este desconforto, esta estranheza, eu sei que é muito importante dentro do fazer poético da cidade pois esta voz dissonante pode gerar outras formas de música, até que venhamos a compreender melhor as mensagens que o autor externaliza e deseja passar.
      Eu ainda fui encontrar uma ligação dos galos do Léo Mandi com o galo de João Cabral de Melo Neto no poema "Tecendo a manhã" em que diz que "Um galo sozinho não tece a manhã: ele precisará sempre de outros galos", seja o garnizé, o carijó ou o índio, espero que o galo Mandi continue cantando para que os outros teçam a manhã.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

AQUI ESTÃO OS TIGRES

          Pablo Gonzalez lançou um livro intrigante e interessante chamado "Aqui estão os tigres".
          Trata da história de um desenhista que está com dois problemas urgentes, o primeiro junto às autoridades após um acidente de trânsito e o segundo é o término do romance com a sua ex-namorada. Todo o livro gira em torno destes problemas que parecem insolúveis para Valentino. Pensando mais a fundo, o problema maior do personagem não é resolver o assunto do acidente ou com a namorada, mas resolver a si mesmo quando é chamado à realidade (que se recusa a enfrentar) e ao convívio social, pois vive num mundo de fantasia e escapismo, com medo de entrar no mundo real, pois este lhe traz dor, medo e insegurança, sendo incapaz de assumir o seu amor por Celine.
          Vejo mais o livro dentro do embate entre o sonho e a fantasia e a realidade, de certa forma, um embate presente no mundo moderno em que as pessoas parecem mais e mais voltadas a fugir da realidade através de diversos meios, como as das drogas ou o computador, pois este apresenta uma realidade virtual mais interessante pois ausenta o indivíduo da dor.
          Pablo Gonzalez, escreve de forma incomum pois ele não utiliza os recursos clássicos dos romances, fugindo do esquema: "descrição do ambiente e do protagonista, fato que altera a história, resolução do problema", pois procura muito mais a análise psicanalítica do personagem, construindo um indivíduo ambíguo e inconstante, reflexo do mundo atual. No livro, ele deixa o problema sem solução, temos que depreender o ambiente e não conseguimos fazer uma idéia exata do protagonista. Confesso que é uma escrita que causa um desconforto inicial mas, nem por isso, deixa de ser interessante e renovadora.
          No primeiro momento ao usar a fala de um "fantasma" usa um artifício interessante para apresentar o personagem, tanto porque quem apresenta a questão não existe (é um fantasma), quanto porque uma questão importante é o medo que o protagonista tem de viver, e, por isso, busca um mundo de sonho que existe apenas nos seus desenhos (poderia ser no seu computador ou nas drogas, como já disse). Somado a isso, o fato de usar uma fala sem pontuação transforma este capítulo em uma experiência do leitor para dar o ritmo que ele desejar. Gostei deste recurso.
          Assim, Pablo vai lançando as questões para que nós as resolvamos, temos medo de viver neste mundo? Fugimos dele? Desejamos escapar através de alguma maneira que não precisemos sentir dor?
          Gostei do estilo da narrativa, é bem envolvente, bem escrito, os parágrafos são bem trabalhados, a construção das histórias que permeiam o livro são bem feitas, tanto que não consegui sossegar antes de terminar o livro todo. Gostei das várias situações. No decorrer da leitura, confesso que me perdi com elas e não conseguia mais distinguir o que era realidade e ficção na vida do Valentino, então, comecei a ler de outra maneira, sem me preocupar com a realidade proposta, a partir daí, a história começou a tratar do caminho da loucura em que o Valentino seguia e foi fluindo ainda mais  fácil quando comecei a entrar no jogo de situações, nas probabilidades impossíveis sem pensar qual era o sentido.
          Um momento do livro que me agradou demais e me fez sentir a qualidade do autor foi a fantasia do Valentino que troca de corpo com Celine e o livro começa a ser descrito pela visão de mundo da Celine, foi fantástico este momento e me deixou com a certeza de que temos um grande autor ao nosso lado. Só lendo o livro para compreender.
         De certa forma, a multiplicidade do pensamento do Valentino tem a ver com a multiplicidade de escolhas do mundo atual e este pareceu o maior conflito do personagem, diante de tantas escolhas e possibilidades para a própria história que o mundo atual oferece, qual caminho o personagem deveria tomar? Ao pensar em tantas escolhas, Valentino se perdia e se conduzia à loucura. Mesmo porque, ninguém no mundo quer fazer as escolhas erradas ou que lhe causem dor, mas precisamos fazer estas escolhas.
         Assim, Pablo Gonzalez tenta mergulhar na alma do personagem, decifrar esta quantidade de escolhas que ele tem para fazer, analogamente, podemos dizer que a vida do Valentino é como o mundo, cheio de escolhas, cheio de rumos, cheio de desejos, mas a questão é como escolhemos o caminho que vamos seguir? Qual é a escolha certa? Qual é a atitude correta?
          Recomendo o livro com a certeza de que Pablo Gonzalez faz parte de um seleto rol de excelentes autores do nosso Vale.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O Bebedor de Auroras

     Tonho França lançou o belo livro "O Bebedor de Auroras", em que nos traz uma poesia lírica muito bem trabalhada, em que ele usa diversos recursos de estilo para dimensionar sua visão do mundo moderno vinculado a sua visão íntima de poeta repleta de aspectos valeparaibanos.
     Farei a leitura de alguns poemas e trechos de poemas  numa tentativa de explicar este poeta complexo e completo, começa no seu primeiro poema, constante de apenas dois versos:

     Enquanto Sonho

     Teço versos que a manhã
verte anônimos entre os homens.

     A primeira lembrança que me trouxe este poema é uma referência ao poema "Canção Amiga" de Carlos Drummond de Andrade em que escreve nos versos finais "Eu preparo uma canção/ que faça acordar os homens/ e adormecer as crianças" porque tecer versos e preparar uma canção são semelhantes mas enquanto Drummonnd tem este característica de impactar (acordar os homens), Tonho França vem se inserir sem alarde, querendo, ao mesmo tempo, participar da humanidade com o seu canto, aqui, já começamos a ver um recurso interessante que Tonho utiliza, ao usar "a manhã" ele pode indicar também o "acordar os homens", ou "amanhã" como um tempo futuro, de qualquer maneira, ele faz esta relação de herança entre o modernismo de Drummond e a atualidade da sua poesia.
     Na sequência, vem com "Tons de Maçã com Canela (tardes sem rotas e destinos)" em que ele coloca muitas das características e dos temas que vão permear todo o livro, que são o uso de figuras estilisticas combinadas como, por exemplo, a prosopopéia, a metáfora e a sinestesia nestes belos versos da primeira estrofe do poema:

      "Colho manhãs plenas de interrogações
      as minhas roseiras despertam mais cedo
      meus olhos, mais cansados, deságuam
       no verde claro-infinito do capim-cidreira."


     Tonho França usa e abusa com maestria de todos os recursos estilísticos possíveis sem cair em armadilhas  fáceis, ao contrário, usa com propriedade e cuidado para criar suas alegorias da vida humana, do tempo que passa, da solidão dos homens no seu mundo. Interessante é observar que o poeta não fala de Deus ou de religião mas escreve cada verso com beleza e significado que se aproxima de algo divino, no sentido de algo que nos enleva e eleva a outro patamar.
     Voltando a falar de características dos seus poemas, é importante frisar o ritmo que ele impõe, onde temos o exemplo a seguinte estrofe do terceiro poema do livro, "Sobre noites e poesia":

     "O tempo não é senhor de tudo
      O tempo não apaga tudo
      Até muda o humor das marés e dos homens
      Cercas e soberanias, domínios e propriedades"

     Concentremo-nos nos fonemas utilizados: "tem", "tu", "tem", "tu", "mu", "mor", "rés", "mens", "cer", "ni", "mí", "da" e temos o ritmo que ele coloca no poema, estas repetições vão acontecendo nos poemas de forma que dá um ritmo muito agradável. Além disso, recorrendo a mais uma estrofe do mesmo poema:

     "Tantas coisas em meu coração,
     Intangíveis por isso minhas
     E só minhas são
     E só minhas são"

     É muito interessante este jogo de "por isso minhas", ou "só minhas são", pois, ao falar de quantidade indefinida (tantas coisas), ele brinca com o som de "isso minhas" e de "só minhas" parece ler "sominhas", ou seja, quantidade e soma, ao mesmo tempo, ler "só minhas são" dá a entender "só minha ação", ou seja, só a ação dele que carrega o próprio coração de tantas coisas. É um jogo de palavras extremamente sutil e bem feito.
     Já em "Epílogo dos Ventos", usa de assonância para dar este ritmo, como vemos na seguinte estrofe (com os grifos em negrito meus):

     "O vento hoje não veio à noroeste
     O sol num silêncio avermelhado grave
     Atreve-se as cores dos meus roseirais


     As nuvens densas, tensas, faces de temporais
     A noite chega sem pressa e com aroma de definição-sentença
     O monjolo parece bater à pressa dos trovões
     Folhas secas bailam no ar em pequeninos redemoinhos"

      Com isso ele vai dando-nos a impressão do vento, do som da ventania, aguardando a tempestade chegar. Parece mesmo que estamos vendo toda a cena, o sol avermelhado, as nuvens densas, estou ouvindo o monjolo batendo, vendo as folhas no ar, é poesia toda cheia de sensações, sinestésica e cheia de ritmo. Lembrando que ele usou todos os recursos poéticos já citados anteriormente. Não se esgotaria aqui a multiplicidade dos recursos utilizados ao longo de todo o livro.
     Além disso, a temática poética de Tonho França está centrada no homem e seus caminhos e consequências dos caminhos, onde a frequência do uso das rotas e destinos, potes, compotas, temperos, trazem-nos a idéia do homem que trilha caminhos em busca do que dá prazer e felicidade na vida, não é um prazer fácil, uma vez que os caminhos parecem muitas vezes doloridos "e de nada me adiantariam agora lembranças,/ penitências, alegrias ou arrependimentos/ -Estou recluso nos versos - / E nas minhas dores e culpas/" de "Autorretrato".
     O tema das rotas ou dos caminhos é bastante explorado sempre em conjunto com o dos sabores/temperos (chá, compotas), vimos em "Tons de Maçã com Canela", "Castelos de Linhas", "Caminhos de Sol", para citar alguns poemas, junto com solidão e tristeza doces, não amarguradas como se poderia pensar, e isto é interessante também.
     Outro fato marcante é inserção do Vale do Paraíba na poesia de Tonho França. Em nenhum momento ele cita explicitamente sua origem valeparaibana, mas é tão claro ver isso colocado de forma universal, ou seja, poderia ser de outro lugar porque ele trata dos sentimentos, da vida, do mundo, mas vemos que tem a pitada, a origem valeparaibana quando ele utiliza palavras como procissão, monjolo, romaria, café com pão de manhã, ou em um belo verso de "Artificial", "o mar, desabando séculos de azul, tinge as cordilheiras", quando ele chama a Serra da Mantiqueira de cordilheira que, vista de longe, é azul. Questões da religiosidade inserida na alma do valeparaibano "e os homens perdidos, rasgam-se em gritos: Rogai por nós!" de "Noites sem Estrelas", ou virgem, rosário, hóstias em "Canto I" e costumes típicos como manter canteiros e temperos em casa.
     E quando pensamos que nos cansaríamos deste estilo de lirismo poético, Tonho França dá um salto e mergulha numa linha poética mais atual, metropolitana, urbana, direto e crítico:


   "Urbe-doida"


    "Toda bala é assassina
     se (en)contra uma vida
     não existe este papo
     de bala perdida"     

    Usando o recurso de colocar o (en) entre parenteses para dar novo significado, toda bala contra uma vida, é contra uma vida quando encontra uma vida. A este, juntam-se "Metropóle" e "Tempo Moderno", e depois ele vem com outro poema curto, direto, atualíssimo no jeito de fazer poesia:

  "Muros

    A toda hora
     A todo momento
     Estou fora ou dentro?"

    Inserindo-se de vez nesta grande metrópole urbana, conflituosa e confusa em que o Vale do Paraíba está se transformando.  Mostrando que é um poeta atuante, atualizado, contemplativo e crítico, necessário ser lido e compreendido, pois é de importância para compreensão do momento vivido.

    Só lembrando, alguns dos poemas aqui citados podem ser lidos no blog do poeta Tonho França, clicando no título deste comentário.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Desmergulho de Daniela Peneluppi

           Em 2010, durante o Festival da Mantiqueira, Daniela Peneluppi lançou o seu primeiro livro de poemas chamado Desmergulho.
           Começo dizendo pelo que me chamou primeiro a atenção no livro: poemas feitos como se fossem letras de música. Neste contexto, temos os poemas "Alô da Terra Custa Caro", "Bolero Saudoso", "Desmergulho", "Ilhabela", "Só uma Palavra". Em geral, são poemas com certa métrica, com palavras colocadas bem corretamente dentro de uma melodia que se pode até imaginar.
           Outro aspecto foi o visual no interior do livro, Daniela usou de muitas imagens de paisagens, flores, fotos diversas, além de escrever ora em maiúscula, ora em minúscula, ora iniciando com letras minúsculas as palavras com o restante do corpo em maiúscula. Esta utilização acabou por trazer algumas reflexões que vão além da palavra, pois, ao se utilizar destes recursos, a artista causa estranheza na leitura do livro, não estamos acostumados a ler uma palavra iniciando com minúscula e com o resto do corpo em maiúscula como em:

ASTRAL

bANHO dE rIO
bANHO dE mAR
bANHO aO lUAR
aR
LOGO LEVE
LEVE CORPO
dAQUI
pARA uM oUTRO lUGAR.

           Mas não é esta estranheza visual que este uso das letras nos causa que me fez pensar sobre este recurso, pois, ao utilizá-lo, perdemos um pouco o senso da palavra escrita, se o recurso fizesse jus a uma forma inovadora e de vanguarda no que ela quer dizer, então, seria muito válido, mas isto não ocorre porque é um recurso visual inócuo. Melhor seria se usasse o recurso de misturar letras maiúsculas e minúsculas com o intuito de destacar determinadas letras que, dentro do poema, poderiam transformar-se em outro poema.
           A métrica e a sonoridade que servem nas canções não necessariamente servirão em um trabalho poética de vanguarda, porque o trabalho poético deve ser repleto do mundo atual, deve vincular a vida do poeta com o mundo de alguma forma muito particular e única, o que está faltando para Daniela neste trabalho.
             Ao voltar-se para si mesma, não enxergando o arredor, ela se mostra fechada em um mundo interior próprio, sinalizar que morou aqui ou ali não significa que tenha saído de seu mundo interior para atingir o mundo dos seus pares, um grande poeta escreveu que viajou por todos os lugares do mundo, mas o único lugar em que realmente se encontrou foi dentro dele mesmo. No entanto, este é um caminho para chegar ao mundo que nos cerca, conhecer-nos para depois ir ao encontro do outro.
            Nesta sua fase poética, Daniela está indo ao seu próprio encontro, esta visão, às vezes egoísta, incomodou-me muito porque ela não conseguiu atingir um olhar mais refinado do fazer poético. Tanto que um dos temas que chama a atenção é o uso do espelho, do reflexo, do ver a si mesma muitas vezes, já na abertura do livro no poema "A Espera", depois em "Cabelo-Iris", "Lá em Cima do Piano", "Refrangível".
            Entendo que a palavra pode ser colocada ao seu próprio serviço, mas só atinge um grau mais elevado de poesia quando se impregna do mundo, das pessoas à nossa volta, das nuances que percebemos nas dores nossas e dos outros, o poeta não pode viver só no seu próprio mundo, como se morasse em outro planeta, precisa descer à terra, caminhar no meio do povo, sentir o calor da humanidade. Falta isso, neste momento, à Daniela.
              Convém ressaltar que surgiram poemas interessantes como "Plenilúnio" em que ela consegue fazer esta junção da própria dor e das dores alheias, misturando o sentimento de saudade com figuras interessantes como a imagem do trem na lua cheia. "Olhar invertido no vidro"
          Há vários poemas repetindo o tema de "Mar", "Lua", "Estrela", "Céu", "Rio", "Vento". Ao selecionar as 9 palavras mais utilizadas nos poemas (Céu, Lua, Estrela, Sol, Mar, Rio, Chuva, Flor e Espelho), vemos que dos 51 poemas, 26 deles possuem alguma destas palavras, sendo que em pelo um poema, seis destas palavras estão presentes.
         Faltou à poeta pensar o livro como um todo, como uma obra única, sendo o primeiro livro, talvez tenha havido o desejo de publicar o máximo possível sem considerar o conjunto da obra e dos temas tratados, penso que ela deveria se focar mais no temas trabalhados nos poemas "Refrangível", "Plenilúnio", "Campos de Margarida", "Olhar invertido no vidro" que são os mais interessantes.

domingo, 6 de junho de 2010

A LITERATURA INVISÍVEL DO FESTIVAL DA MANTIQUEIRA

     O Festival da Mantiqueira tem seus defeitos e precisa de aprimoramento. Com certeza o maior defeito é o vício de promover as grandes editoras, casando a política do poder econômico com o poder  político. O governo do estado de São Paulo premia os autores das grandes editoras porque estas, além de se alinharem com ele, apreciam a promoção gratuita que o Festival lhes confere.
     No entanto, o maior de todos os defeitos do Festival não está nisso, mas na ignorância que a imprensa dá a aquilo que o Festival poderia trazer de melhor: a novidade na literatura. Quando a organização do festival confere um prêmio ao melhor autor estreante, está conferindo um prêmio a um autor que passou por um longo crivo editorial e que a grande indústria tem muito interesse em transformá-lo num autor de grande vendagem, obviamente.
     Mas este nem é o grande problema, sabemos que as coisas funcionam assim. Gritamos contra isso. Sim, gritamos. Fazemos barulho e tentamos chamar a atenção. Sim, fazemos.
     Neste ano de 2010, obtivemos um apoio imenso da Fundação Cultural Cassiano Ricardo para que pudéssemos participar do Festival da Mantiqueira e obtermos algum contato com os nossos leitores. Como escritor, fiquei muito feliz de ver, enfim, o órgão público municipal voltado à cultura, dedicando-se de corpo e alma a um projeto fora dos padrões da grande indústria. Participar daquele espaço de cem metros quadrados onde nós, escritores, pudemos interagir com nossos pares e com possíveis leitores e outros interessados foi gratificante e me levou a muitas reflexões.
     Primeiro de que precisamos disso mesmo, do apoio de pessoas de fé nesta cidade, como o curador Júlio Ottoboni da FCCR, ao qual somos muito gratos, para que possamos e passemos a existir perante a população joseense.
     Segundo, a TV Vanguarda mostrou pouco interesse em divulgar a literatura e poesia da região em que obtém seus recursos financeiros, vendo as reportagens que fez sobre o Festival da Mantiqueira, percebi que ela só não ignorou a tenda Cassiano Ricardo porque fez trinta segundos no SPTV 2ª edição de sábado, no entanto, esquecendo de dizer que os autores eram joseenses, que o espaço era fornecido pela FCCR, sequer entrevistou o curador da FCCR, muita ignorância do repórter que não vai a fundo no seu trabalho. Na última reportagem exibida na segunda-feira, 31 de Maio, por exemplo, passou direto da apresentação da Orquestra Sinfônica para a Tenda Principal, não mostrou nada e nenhum dos acontecimentos da tenda da FCCR onde importantes conversas foram levadas a cabo, lançamentos de muitos livros de autores joseenses, discussões sobre os rumos da literatura no vale, sobre a sociedade em que vivemos, sem contar a intervenção excelente do Poeta Moraes defendendo com razões inquestionáveis o poeta como ser pensante e atuante na sociedade, contrariando a visão geral de que o poeta é um alienado do mundo. Para a TV Vanguarda, os autores joseenses parecem invisíveis, não existem, não tem ninguém digno de representar a literatura. Perde a TV Vanguarda uma chance de participar mais com este grupo interessante e inteligente da região. Foi pouco o que ela fez, poderia e tem condições de fazer mais e participar mais da vida urbana.
     Terceiro, o jornal O Vale novamente perde em apenas divulgar o programa do Festival. É inacreditável que um jornal da nossa terra se preste somente a isso. Reproduzir o programa do Festival. Não vi um repórter do jornal entrevistando ou fotogrando os autores presentes no espaço da FCCR. O jornal O Vale poderia realizar matérias literárias muito interessantes, colocando muita coisa em discussão, tanto em poesia quanto em literatura, mas, parece que as pessoas que estão no jornal O Vale têm dificuldade em lidar com as cabeças pensantes da região, preferem isolá-las, torná-las invisíveis, assim não mostram a ignorância do jornal. Até para o jornal da nossa região, os escritores joseenses são seres invisíveis. A participação de O Vale foi pífia, ridícula e menos que medíocre para um jornal que se pretende formador de opinião nesta cidade.
     Quarto, as atitudes dos políticos joseenses são lamentáveis. Quais vereadores se deram ao trabalho de visitar a tenda da FCCR? Á exceção do Cristiano, que passou bastante tempo lá conversando e prestigiando, eu vi apenas o Wagner Balieiro acompanhado do deputado Carlinhos Almeida. Longe de qualquer filiação partidária, política ou ideológica, vou analisar a postura dos políticos que passaram por ali. A começar do nosso prefeito que passou feito um raio pela Tenda da FCCR, demonstrando bastante desinteresse pelos livros e pelos autores, depois, sumiu das ruas de São Francisco Xavier, sendo impossível vê-lo entre a população ou conversando com os munícipes, afinal, rodeado de interesseiros, não podia mesmo se aproximar da população. Atitude totalmente diferente do Deputado Carlinhos Almeida e do vereador Wagner Balieiro. Durante todo o domingo, pude vê-los circulando pelo Subdistrito, conversando com um e com outro, parando na tenda da FCCR e conversando com quem estava ali presente, mostrando-se interessados nas coisas que aconteciam, até vi Balieiro participando de uma das conversas da programação da Tenda da FCCR. A humildade e desprendimente destes dois foi fantástica. Nada de estrelismos, nada de asseclas e interesseiros, apenas estavam interagindo com a população como qualquer um de nós que lá estavámos.
     Pergunto: e os outros políticos? Onde estavam o deputado federal Emanuel Fernandes, os vereadores Dié, Alexandre, o deputado Hélio Nishimoto? E os outros vereadores? Só andando atrás do prefeito?  Francamente, se estávamos invisíveis para estes políticos, estes, então, nem sequer se interessaram por alguma cultura. E, ao não se interessar em interagir com as pessoas ligadas à discussão da cidade, ao pensamento, às novas idéias, com quem eles vão dialogar? Será que vão dialogar com os donos de construtoras ávidos para liberar prédios em ruas que não suportam mais edifícios? Espero que não, espero que procurem dialogar com formadores de opinião e não com formadores de patrimônio.
     É isso, não fosse o enorme esforço da FCCR em divulgar os autores joseenses, continuaríamos todos invisíveis para a cidade. Pelo menos, para a população que se deslocou até São Francisco, pudemos conversar, aparecer, mostrar que existe literatura e poesia muito bem feitas em São José dos Campos.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

OS MICROCONTOS DE WILSON GORJ

A MICRO LITERATURA DE WILSON GORJ


Leitura do livro: Prometo ser breve

Wilson Gorj é um autor novo que já possui um bom trabalho tanto em participações em livros quanto no universo web e lançou no dia 21 de março de 2010, em Aparecida, o seu segundo livro "Prometo ser Breve", onde expõe ao extremo a sua arte de micro contos, em que reduz ao mínimo uma história, redige, na verdade, apenas a idéia da história colocando a contradição do significado de uma expressão. Seus microcontos aproximam-se da poesia e se diferenciam por não ser uma escrita de figuras de linguagem.

Como exemplo de um microconto, temos:

“Ela pintava quadros. Ele, paredes.
Conheceram-se. Pintou um clima.
Na cama, pintaram o sete.”

Neste micro conto, ele se utiliza dos vários significados da palavra pintar para criar a sua história. Pintar quadros e paredes, pintar o clima no sentido de haver afinidade entre duas pessoas, pintar o sete no sentido de fazer brincadeiras, no caso, sexuais. Então, ao brincar com o sentido de uma palavra, Wilson Gorj desenvolve o seu microconto, no caso acima, mesmo que ele não descreva, podemos pensar na mulher artista, cheia de sensibilidade, no homem pintor de paredes, cheio de rudeza, ainda sim, conhecem-se, surge o desejo em ambos, sentem-se atraídos e acabam na cama, talvez até pudéssemos classificar como se fosse poesia concreta transcrita para a prosa, mas não é porque a poesia concreta, além do aspecto visual do uso das palavras, também procura transformar o poema em transfiguração da palavra, que é muito diferente do microconto.

No decorrer da leitura, senti o exagero do autor nesta redução. Em muitos casos ao colocar apenas uma frase opondo dois fatos contrários, por exemplo:

“Experimentou todas as chaves do molho, nenhuma lhe abriu o apetite.”

Apesar de eu gostar desta sacada original, o molho de chaves e o apetite, sendo que molho na comida é o que dá novo sabor ao alimento. E, apesar de ter gostado de inúmeras outras, tudo em geral, repleto de ironia, confesso que, ao terminar o livro, não consegui guardar muita coisa do que li na memória, nem mesmo ficou aquela mastigação de uma idéia central tratada num conto, romance ou poema, nem fiquei a pensar no que o autor propôs como idéia de mundo e comecei a entender que não era esta a idéia do autor. Nada ficou gravado na memória, tudo foi tão efêmero quanto o tamanho dos contos. Então, retornei à leitura para compreender melhor porque eu gostei de algo que não ficou na memória.

Realmente, Gorj não se propõe a explicar ou a teorizar o mundo, ele está implícito no mundo, é tão parte da atualidade que acaba por fazer literatura da sociedade sem explicá-la ou teorizá-la.

A leitura acontece e provoca a sensação imediata, feito um doce gostoso, um perfume agradável, uma bela visão de uma borboleta, uma bolha de sabão que estoura. Sem o contexto que envolve cada uma destas sensações, a memória não grava a lembrança da história mas apenas a sensação. Tudo se esvai feito fumaça, gás, uma nuvem que lembra uma forma e no momento seguinte é outra coisa da qual esquecemos da primeira sem perder o gosto de apreciar as nuvens.

Isto causou-me o incômodo de não ser transformado ou tocado por uma grande história que vem e nos impacta ou nos carrega a outros mundos através de elaborações mentais. A redução da história a sua sinopse, reduz a vida daquela história. Retornando ao que disse no parágrafo anterior, para mim, é tão clara a imersão de Gorj no mundo que ele representa a tradução exata da superestrutura da sociedade de hiperconsumo atual para a literatura.

É a necessidade de consumo rápido da sociedade, então, o microconto é consumo rápido da leitura, em seguida, o próximo microconto tem de causar outra sensação, trazer outra antítese ou metáfora ou contradição, diferente da anterior e, no fim, esta repetição acaba sendo sempre a mesma solicitação da sociedade do hiperconsumo. Sempre a rapidez da sensação que vem e causa um impacto suave e agradável e importante, sem dor, sem tristeza, sem levar a alma aos seus recônditos mais cruéis, e logo devemos ter outra sensação agradável e boa. É a transcrição exata da sociedade do hiperconsumo para a literatura.

É importante dizer que isto não pode ser classificado com bom ou ruim, mas como uma forma diferente de se fazer literatura. Os microcontos, apesar de existirem há um bom tempo, aproximam-se muito da literatura atual neste sentido da rapidez do mundo, internete, twiter, email, mensagem instantânea.

E quando Gorj entra na poesia é que podemos fazer uma comparação e aproximação e distensão com o que outros poetas fazem.

Há poemas muito bons como:

VOCÊ

Um punhal
Espetado no meu peito
Meu dilema
É não saber direito
Se a tiro de mim
Ou se cravo até o fim.

Ou

ATRAÇÃO FATAL

Não fale muito próximo
Sua boca é vertiginosa como os abismos
Mais um palmo
E eu me ...
                a
                 t
                  i
                  r
                  o

Então, nos temas poéticos, o autor trata basicamente de poemas de amor e de poemas sobre a poesia e o fazer poético, em geral, utilizando também ao máximo a idéia do mínimo, acaba por não explorar ou se aprofundar na riqueza das figuras de linguagem que ele mesmo cria e produz, ao utilizar da ironia com prodigalidade, fica devendo um pouco mais de conflito que poderia tornar ainda melhor o seu trabalho.

O trabalho de Wilson Gorj é muito bom, inteligente ao utilizar tantas observações interessantes, “sacadas geniais”. Nesta parte poética, ironia do destino, Gorj escreve poemas maiores do que seus microcontos e há poemas, que são verdadeiros microcontos como:

O VAGABUNDO

Dono de todas as ruas
O vagabundo perambula
À procura da cama sonhada
Enquanto não a encontra
Ele dorme pelos cantos
No chão duro das calçadas

Belo poema, quase todo métrico e cheio de ritmo e com um tema social mais abrangente. E não deixa de ser uma história: o vagabundo procura a sua cama, não encontrando, dorme na calçada. Mesmo na poesia, ele não conseguiu abandonar os seus microcontos, ou seja, faz esta mistura entre poesia e prosa.

É isso, Wilson Gorj nos traz os seus microcontos e, muitas vezes, parece-me que fez uma espécie de propaganda, usou trinta segundos do tempo em que estamos no meio do programa e deu o seu recado. Neste caso, o programa seria a nossa vida e o seu microconto seria o intervalo para o comercial. Deste ponto de vista que enxergo o trabalho de Gorj como parte do mundo.
Continuei com a sensação de leveza. A propaganda até nos leva a fortes emoções mas não contesta o capitalismo e o consumo porque é parte desta sociedade consumista. Faltou isso, fazer com que o micro conto seja uma forma de protesto, de revolução do pensamento. Não deixar que o micro conto seja apenas a revolução do formato do conto, mas é preciso que seja a revolução do pensamento.