
Este pequeno livro, "Para Seus Olhos de Vidro", lançado em Março de 2013 traz dentro uma dor aguda dos amores experimentados, vividos, com a certeza de que nenhum amor é perdido, tudo é conhecimento adquirido e transformação de vida, por piores que sejam as experiências. Lendo, tentei encontrar o tema predominante e fiquei em dúvida se o livro tratava de amores ou da resiliência, pois, percebe-se no fundo que a autora se mostra viva, firme, resistente, apesar de tudo o que sofreu. Ela não expôs apenas o sofrimento, o qual podemos deduzir, mas a sua resistência a ele.
Vejamos que ela começa o livro com:
Idade
É o tempo
Que me corta os dias
O mesmo
Que me conta os casos
Dos quandos
Que eu não mais ouvia
Aos comos
Sem porquês dos atos
É dele
Meu desenho à pele
O mapa
Pelo qual escapo
Da velha juventude eterna
Ao tempo
Meu melhor bom dia
Sem medo do que o sol me tira
Me farto do que a luz me soma
Ao dizer que o tempo vai lhe cortando mas ainda assim ela lhe dá o seu melhor bom dia sem medo, a poetisa vem dizer que resiste, que ele pode trazer o que for mas ela não terá mais medo do que lhe for tirado porque aprender a viver com o que lhe foi acrescentado (as experiências acrescentam).
Sobre este poema ainda vou acrescentar a forma de usar sílabas fracas e fortes no sentido de dar ritmo ao texto, veja que em "é o tempo", temos a sílaba poética "é o", fraca, depois, "tem-", forte, no verso seguinte "que / lhe ", fraco, fraco, "cor-", forte, "ta-os ", fraco, "dias", forte, ficando o ritmo, fraco, forte, fraco, fraco, forte, fraco, forte, melhorando, colocando f minúsculo para fraco e f maiúsculo para forte, o ritmo do poema é: f F f f F f F f F f f F f F.
A poetisa utilizou-se muito da forma em seus poemas, alterna versos curtos e longos, faz estrofes com versos com métrica, mistura um e outro mas não fica restrita à forma, em muitos poemas, usa de construções que mais se assemelham a um texto em prosa, como em
Último
Eu não deixei de amar. Só me libertei de você.
Só atravessei a vidraça.
Só rompi os pontos, jorrei o verbo, cravei os caninos nos seus adjetivos.
Me insurgi.
(...)
Retornando à questão da resiliência, ela traz também a ambiguidade do desejo, ora mostra-se ávida e cheia de amor, apaixonada, ora, mostra-se decepcionada e amargura, vamos aos exemplos:
Em " Presença n.º 5": "Eu amo o cara que passa/ longe/ Em minha memória".
Em "Para seus olhos de vidro": "E quando me olha/ me faz invisível"
Em "Primeiro": "Saudade dos seus olhos na minha pele/"
Em "Vermelho Verdade": "Não foi pra você/ A melhor poesia/"
Em "Véspera": "Medo de me sentar na banqueta e pegar as doenças da sua família".
Prevalece sempre o amor vivido e desejado e as marcas que ele trouxe e deixou na poetisa, as dores, as lembranças que não saem da memória e continuam ainda que o amor tenha acabado. Ao percorrer o livro, é este amor muito desejado e pouco realizado que fica em evidência, dando a entender que a dor do amor vivido foi maior do que a alegria que dele veio, onde senti bastante vigor em poemas mais duros como "Último", "Cônjuge", "Véspera". Ao encerrar com "Adendo", ela mostra bem que entende melhor este amor vivido e sentido e continua se entregando a ele apesar de tudo.
Não posso deixar de destacar o belo poema que ela fez para sua avó, Augusta em que começa com estes belos versos: "Eram seis... e a rede trançava fiapos de luz da janela tardia", e depois encerra com: "Foi moça / Augusta Maria / Sem se dar conta / Que o tempo só / ia."
A poesia de Andrea de Barros mostrou-se bastante intimista, voltada para suas próprias experiências amorosas, onde pouco identifiquei elementos de vínculo com seu tempo ou seu lugar, é uma poesia dela, de sua existência, de suas experiências que, lógico, podem ser compartilhadas e compreendidas pelos outros. Isto ficou evidente em "No Escuro" em que diz: "Se a luz se apagar / ainda serei eu / no espelho?". Os elementos que encontrei de referências são bastante urbanos e universais, o que me leva a crer que o livro tem a função de expurgar e esmiuçar o caso específico das emoções que o amor vivido trouxe. A pessoa se entrega ao amor e depois sobra o quê? Para mim, ficou este o questionamento do livro, de certa forma respondido ao longo das páginas.
Lembrou-me outra autora que comentei aqui neste blog há pouco tempo, Débora Valim, que também, de certa forma, fez do seu livro um expurgo de mágoas e ressentimentos vividos. Cabe aí um questionamento interessante, se pensarmos que são formas de mostrar uma condição feminina diante do amor vivido e que não é realizado. Estaria a nossa sociedade "vendendo" uma ideia de amor que não corresponde à realidade? Existe mesmo este amor romântico, desejado e buscado, principalmente pelas mulheres? Ou estariam os homens enxergando a vida e o amor de uma maneira tão diferente que não estão vivendo no mesmo mundo que as mulheres? Questões para se pensar.
-------------------------------------------------------------------------------------------
Para quem se interessar em adquirir o livro, pode ir direto no link abaixo.
http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=105
Nenhum comentário:
Postar um comentário