segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Olhar de Cão de Francisco José Ramires

         Em 13/09/2018, Francisco José Ramires lançou "Olhar de Cão" na Literacia.
         É interessante o esforço do autor de olhar a sua vida a partir de outro ponto de vista, no caso, do ponto de vista de seu cão. De certa forma é uma tentativa de compreender o próprio mundo e suas dificuldades, apreensões e alegrias, colocando-se do lado de fora da sua vivência.
         A partir deste ponto de vista, o autor nos traz o seu cotidiano de maneira lírica e agradável, levando-nos a uma reflexão sobre o que uma outra pessoa diria se apenas acompanhasse a nossa rotina sem poder
interferir em nossas decisões, parecendo muito como se assistíssemos um novela diária. Nesta "novela" senti falta da manifestação do "cão" sobre o que sentiu quando a velhinha de rodinhas não estava mais presente no apartamento. Confesso que vim acompanhando esta personagem coadjuvante, aguardando mesmo o que o cachorrinho diria sobre a partida definitiva dela.
          Claro que ao dar voz a seu cão, o autor dá voz a si mesmo, fazendo com que estas crônicas tornem-se ao longo deste livro uma grande declaração de amor do autor pela vida, pela mãe, pelo cãozinho e, principalmente pela sua companheira. Se faltou um mergulho maior nos sentimentos mais profundos, obscuros e complexos do mesmo, compreende-se que a intenção é dar ao leitor um texto leve, agradável e despreocupado como se fosse mesmo a vida do seu cão, que só conhece o presente, não entende de passado e de futuro.
          O livro é uma reflexão poética sobre o cotidiano e sua beleza, sobre o mundo e suas restrições, e, principalmente, sobre o amor que se encontra e permeia a rotina das coisas simples da vida.
         O que me chamou bastante atenção é a forma poética presente em todo o livro, em todas as pequenas crônicas encontramos este lirismo, por exemplo, na página 71, crônica 41: "Meu território é sagrado, de vestíbulo cravado na entrada, a separar mundos vários, sagrado e profano. Assim sendo, as idas e vindas de pessoas novas requerem rituais de iniciação.", e gostei muito das disfarçadas (ou não?) declarações de amor pela dona do pedaço como na crônica 29: "Minha dona  porta sinfonias. E eu tenho a magia de ouvi-las. Aonde quer que ela vá, suas harmonias preparam os caminhos, afastam pedras, abrem flores.", é poesia em forma de crônica.

domingo, 17 de setembro de 2017

Festivais de LIteratura

     Neste exato momento está acontecendo a FLIM - Festa Lítero-musical do Parque Vicentina Aranha e muitas reflexões surgem do evento.
     A primeira reflexão é que os autores de São José dos Campos que quiseram ter suas obras expostas na Flim tiveram de participar de um sorteio porque não havia espaço para todos. Os sorteados ainda teriam de pagar R$ 60,00 para ter suas obras expostas e ter o direito de vendê-las durante a Flim.
     A segunda questão é a participação de músicos consagrados como Antônio Nóbrega e Chico César.
    Para mim, estes eventos deveriam superar a questão da inserção da literatura no mercado de livros, são coisas tão distintas e estes eventos insistem em tratar a literatura como venda de livros segundo a ótica predominante do capitalismo em que tudo tem de ser mercadoria.
     A literatura não é mercadoria, não consegue ser mercadoria porque é uma manifestação que exige uma complexidade maior de compreensão do consumidor. E enquanto os autores forem tratados desta forma, como pessoas que devem inserir-se no mercado (e este "mercado" é uma instituição nebulosa), os autores terão sempre a dificuldade de saber como se faz isso e  podem sujeitar-se a primeira questão que coloquei: a de pagar para ter o seu produto exibido. O erro será sempre pensar que o seu trabalho autoral é um produto. Livro não é produto, livro é autoria, é pensamento, é reflexão. Quanto o livro se torna produto, passa a ser apenas um objeto a ser adquirido e deixa de ser autoria, pensamento e reflexão. Tornando-se objeto, ele é consumido no momento em que é comprado e não no momento em que é lido.
     Penso que estes organizadores deveriam pensar em convidar, pode até ser por edital, pois talvez não haja espaço para tanta gente, os autores da cidade onde a festa se realiza para expor seus livros e deveria comprar os livros para que fossem distribuídos gratuitamente entre os leitores interessados. O leitor chega na mesa em que o autor está, conversa com ele, interessa-se pelo assunto que foi proposto e leva o exemplar do livro do seu interesse que será consumido no ato da leitura do mesmo e não pela compra.
     Que se pague por exemplo, R$ 10,00 por livro e permita-se ao autor entregar 100 livros durante a festa, que se tenha 50 autores e 5.000 livros sejam distribuídos gastando-se R$ 50.000,00 com os livros.
     Que se permita aos músicos se apresentar recebendo cachê adequado, por exemplo, R$ 1.000,00 por apresentação e que se tenha 10 músicos da cidade em palco durante os dias do evento.
 
     Que se traga autores renomados, e músicos consagrados para que este se misturem e troquem experiências com os autores e músicos da cidade.

     Isso para mim seria uma festa lítero-musical.

     O que vejo é o uso dos autores como chamariz para um público que se pensa superior intelectualmente num evento feito para que a cidade se aproxime de um modelo de capital, onde os organizadores pensam em atrair público para justificar o uso de dinheiro público em organização social que faz o papel de secretaria de cultura ou fundação cultural, desvinculando o evento da sua cidade porque este evento poderia ocorrer aqui em São José dos Campos, em Jacareí, Taubaté, São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto ou qualquer outra cidade pois não tem a cara e nem a participação dos autores e músicos da cidade, mas tem a cara e a participação de autores e músicos de fora da cidade que poderiam estar em qualquer lugar do país.