quinta-feira, 23 de março de 2017

JURO QUE TENTEI - FABRÍCIO CUNHA

     Ao ler este livro de Fabrício Cunha, admito que fiquei transitando entre gostar de algumas coisas e não gostar de uma forma mais generalizada. O autor sabe como escrever bem e tem seu estilo bastante marcante no livro. Ele intercala uma sequência de frases curtas em parágrafos enxutos onde vai construindo o seu pensamento para, depois, vir com um parágrafo um pouco mais longo, entrecortado, isto torna o texto ágil e interessante, um exemplo é o início do conto "O Primeiro Chicabon a Gente Nunca Esquece":


     Percebe-se a sequência de frases curtas para formar o pensamento do leitor na direção do clima que o autor cria com o sentido de tentar prender a atenção até o desfecho.
     Este formato ocorre no livro todo. O autor não constrói frases longas, sua intenção é criar uma leitura rápida, isenta de formas requintadas e de dificuldades semânticas. Vai sempre direto ao assunto, sem floreios.
     Este estilo funcionou muito bem nos textos curtos, de duas a seis páginas, em que se esperava uma rápida solução para a história. Com isso, percebe-se que houve uma dificuldade em construir uma história longa e o estilo não funcionou para a única história longa, o conto "Ela, era ela, é ela", pois acabou por ser de uma leitura previsível e cansativa, uma vez que se advinha a história na medida em que vai acontecendo e que não há uma construção forte dos personagens.
     Então, a forma que o autor propõe tem uma leitura aprazível nos textos curtos pois seu estilo é bom.funciona para estes textos.
     Aí entro na questão do tema do livro que e a busca pelo sexo oposto e, deste ponto de vista, fiquei um pouco decepcionado e em dúvida quanto à intenção do autor em mostrar as questões emocionais (subtítulo do livro) de forma tão superficial, reduzindo o relacionamento às questões sexuais. Gosto de pensar que o autor de um livro não é o seu personagem principal, o autor cria um personagem e trabalha com ele, ainda que esteja escrevendo em primeira pessoa. Este personagem protagonista do livro parece que está eternamente cheio de testosterona, fazendo sexo com todas as mulheres que aparecem pela frente.
     Preciso dizer que os contos deste livro me passaram uma visão onde os relacionamentos estão cercados de machismo. as personagens femininas são mostradas apenas como objetos do prazer do protagonista, elas não tem voz, não tem vez, e vivem como se estivessem em outro mundo, inacessível para o homem, fazendo-se a devida exceção para o momento do sexo que passa a ser o elo entre os mundos masculino e feminino. Não há muitos sentimentos, a vida se resume a busca do prazer, a tentar um momento (ou vários) de sexo, a perfomance é mais importante do que a intimidade. Senti-me dentro de uma propaganda de cerveja de milho transgênico, numa praia em que os homens estão atrás das mulheres bonitas e acham que bebendo vão conquistar o sexo desejado. Nota-se a importância do aspecto físico, não basta ser mulher, tem de ser bonita, não basta ser bonita, tem de aceitar ser objeto de prazer. O relacionamento é um consumo, assim como os produtos de um supermercado.
     A minha dúvida é: o autor pensa assim ou está, com o livro, mostrando o seu lado de crítica social. Parece-me que ele está dizendo que a sociedade é assim mas não deveria ser machista, utilitarista (transforma pessoas em objeto), rasa nos relacionamentos, egoísta. Ao contrário, deveria ser mais profunda, solidária, não consumista, onde as pessoas deveriam ser vistas no todo, considerando as suas tristezas, alegrias, conquistas pessoais e coletivas, sentimentos.
     Ao ler o livro, espero que o leitor considere as questões acima e não tome a vida mostrada pelo autor como a correta.
     Se o protagonista é um "ferrado emocional", diria que mereceu ser assim ao considerar a forma como enxerga as pessoas do sexo oposto. A visão que o protagonista dos contos oferece é justamente aquela que se tenta combater mas que é real, está presente na sociedade e influencia a todos. Sou contra esta visão machista, misógina, sexista, consumista, egoísta. Desejo que as pessoas sejam sempre mais solidárias, sociais, coletivas, acolhedoras, não consumistas.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O PRETÉRITO DAS HORAS DE JORGE PESSOTO

        
             Na medida em que eu avançei na leitura do livro, senti-me um arqueólogo, pois saí do século vinte e um e entrei por um túnel do tempo no fim do século dezenove e início do século vinte, onde percorri as ruas de uma pequena cidade perdida do Vale do Paraíba (poderia ser São José dos Campos antes da industrialização), senti o seu ritmo de vida, entrei nas suas casas onde encontrei o interior intacto, da mesma forma que fora deixado pelos habitantes, que, aparentemente, a teriam abandonado. Então, vi o baú e o abri, também fiz o mesmo com as gavetas. Encontrei os pequenos objetos e os pensamentos sobre a vida que fora ali vivida.


       Os aspectos preponderantes do livro são a saudade, o tédio, a passagem do tempo, o passado. Neste sentido, a leitura do livro é bastante interessante mas demanda tempo e reflexão, primeiro porque os poemas são longos, de versos longos, dando um ritmo lento ao livro, segundo, porque é preciso pensar em cada cena que se vai projetando do livro para a cabeça. Este tempo mais lento de leitura remete ao mesmo momento temporal em que encontrei esta vila, em que a vida tinha este ritmo mais lento. Desta forma, os poemas são reflexo do tema proposto no livro e isso fez dele uma obra bastante coesa.


        Fiquei intrigado. Haverá outros livros em que o tempo será trazido para o presente e o ritmo dos poemas também será mais acelerado? Não sei nem se é a intenção do poeta fazer um outro livro neste sentido mas fica a ideia de um livro de São José dos Campos industrializada, onde o ritmo dos seus habitantes é acelerado e, praticamente, nem tem mais tempo para sentir o tédio das catorze horas, tão insistentemente vivo no livro.



       No entanto, como não fiz a leitura toda de uma só vez, pois tenho o costume de ler alguns poemas num dia, depois outros no outro dia e assim por diante, muitas vezes tive a sensação de já ter lido o poema e, algumas vezes, pareceu-me que li o mesmo poema com as palavras em ordem trocada. Ou seja, senti algumas vezes que havia um excesso de repetição no tema e nas palavras utilizadas, Cortar alguns poemas do livro teria trazido benefício para o leitor.



         Algumas palavras que se repetiram e foram mais marcantes foram "saudade", "cidadela" e "tédio". Em um poema, li a palavra "cidadela" duas vezes, não que isso seja ruim ou bom, apenas percebi que esta figura, esta metáfora é importante para o poeta, fiquei pensando e fica a pergunta: Qual é a questão da cidadela? Por quê cidadela? Porque, para mim, cidadela tem outro significado, conforme o dicionário:  fortaleza situada em lugar estratégico, que domina e protege uma cidade. Isso me confundiu porque penso que o poeta queria dizer cidade pequena ou talvez uma cidade perdida, mas na minha cabeça cidadela tem sentido militar. No livro, pode até ter o sentido de um local de resistência ao mundo caótico que vivemos atualmente.


       O Vale do Paraíba é um tema importante para o autor. Há o questionamento do que foi o Vale, do que é hoje e, dentro deste tema, o autor reflete se teria este vale uma alma própria vinda de seu passado e se isto nos quer dizer alguma coisa. Teria uma forma de ver e viver o mundo típica e característica do Vale do Paraíba, única, distinta de todas as outras formas de ver e viver o mundo? Um jeito perdido no tempo em algum momento? Para ilustrar, trouxe este trecho do poema A Espera.

Trecho do poema: A Espera



         Outra questão que trago é da distância que os poemas tem da vida atual da sociedade. Foi proposital, creio, escrever o livro desta forma, como contraponto ao ritmo da sociedade que mau tem tempo para o tédio ou para o ócio. Mas só o poeta pode esclarecer melhor as suas intenções ao propor o livro.

          



Trecho final de Exílio (Banhado)
Sobre a questão do tempo passado e do tempo presente, do progresso que chega para alterar a forma de viver, temos este belíssimo trecho do poema Exílio (Banhado): 
Este poema é também um bom exemplo do ritmo da poesia de Jorge Pessoto, é possível sentir a lentidão do tempo até o momento em que o progresso chega e industrializa a cidade, transforma aquele mundo anterior, traduzindo bem o sentimento do poeta em relação a esta questão da perda de um jeito de viver único. E, quando percebemos, tudo foi perdido, e o passado é um estorvo no mundo atual feito somente de presente.